segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eufemismo

Yo: Pois é... Minha burrice me condena.
Usted: Você não é burra.
Yo: Não sou burra. Só sou menos inteligente que os demais.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A lista

Num dia desses, estava meu pai cortando grama num final de tarde, quando um papel do outro lado da cerca lhe chamou a atenção. Deixou de lado o que fazia e foi ver do que se tratava. De longe percebeu que era um papel de escola. Talvez pudesse ser algum trabalho perdido de uma criança da rua. O que teria ela dito à professora quando chegou à escola? “Não sei o que aconteceu, quando saí de casa estava na minha mochila”, iria afirmar, nervosa com a situação. “Meu cachorro comeu”, talvez dissesse para manter-se na desculpa clássica. “Não fiz”, poderia dizer, envergonhada, a pobre criança. “Sumiu! Juro que estava aqui”, seria outra opção. "Perdi", constataria com a nota também já perdida.

Ao aproximar-se, meu pai percebeu que a folha era de um caderno de caligrafia, o que indicava que, provavelmente, tratava-se de uma criança que estava aprendendo a escrever. Seriam essas suas primeiras linhas? Quem sabe a folha teria um pontilhado e a criança seguiria os traços até que pudesse repeti-los sozinha. Talvez a primeira linha fosse escrita com a caligrafia caprichada da primeira professora, a qual serviria de modelo para o pequeno estudioso.

Grande foi a surpresa quando se revelou o conteúdo daquele papel. Estava escrito dos dois lados. Um deles demorou muito a ser feito. Havia rabiscos, palavras escritas e reescritas. Ela deve ter dedicado muito tempo para escrever tudo aquilo. O tema exigia que pensasse cuidadosamente, demandava concentração.

Havia ali uma lista intitulada “Lista de quem gosto!” – assim, com ponto de exclamação. Efetivamente, três pessoas constavam nela. Alguns nomes foram rabiscados, não mereceram mais estar ali por algum motivo. Afinal, fazer uma lista de quem se gosta não é tarefa fácil. Já diz o ditado, os bons amigos podem ser contados nos dedos das mãos...



O conteúdo do verso era o mais interessante. “Lista de quem não gosto”. Ela só ‘gaguejou’ no título, escrevendo ‘quem’ duas vezes. Depois, a escrita fluiu, saiu fácil. Constam nesta lista quase vinte nomes, poucos rabiscados... Para finalizar ela destacou: “I só por hoje”. Isso mostra que ela considera a lista um documento dinâmico, absolutamente mutável. É possível que alguns nomes mudem de um lado para o outro do papel. Vai saber...



Em que fase mesmo as meninas e meninos são inimigos? Pois, pode-se ver que só há nomes masculinos. Será que era uma lista de grandes paixões inocentes da infância? Será que ela estava de coração partido antes mesmo de aprender a escrever? Quanto tempo ela esperou até que pudesse dominar o ABC para colocar no papel este sentimento?

Há de se concordar que é muito mais fácil falar de quem não se gosta. Algumas ofensas e mágoas podem ser realmente marcantes, quem dirá para o coração de uma criança. Na segunda lista ela não deu ouvidos ao ditado popular que aconselha: “Fale bem dos seus amigos. Dos inimigos não diga coisa alguma”.

A ideia de listar pessoas não é inédita, como mostra a música de Oswaldo Montenegro. Quem já cresceu e não é mais um jovem aprendiz das letras, talvez responda com mais facilidade à questão apresentada pelo compositor: “Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”. Quem arriscar a reflexão, provavelmente, irá responder esta e outras questões apresentadas por Oswaldo com uma carga muito maior de mágoas e tristeza do que a da criança que listou, em seu caderno de caligrafia e com letras minúsculas, os nomes daqueles que gosta ou não. À medida que se cresce, os erros tornam-se mais graves. Quem sabe a criança, a autora, um dia veja este texto e se reconheça, talvez queira responder.



Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?


Dedico o texto ao meu pai, que achou e guardou o papel que me/nos serviu de inspiração.

Caminhos tortos

Estou onde estou porque todos os meus planos deram errado. Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construí para chegar aonde eu queria ruíram uma após a outra. Fui então obrigada a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigada a fazer o que não queria.
O pensamento é de Rubem Alves, mas poderia ser meu e de muitas outras pessoas também...
Contudo, tomo a liberdade de continuá-lo, utilizando outra frase do mesmo autor: Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Minhas ciências ocultas

De dicionário aberto, empenho-me em algumas leituras. Se ele é o ‘Pai dos Burros’, sou eu, então, uma burrinha?

Descobri que “lato” não é o cachorro conjugando o verbo latir. Significa amplo, vasto.

“Afasia” não é um erro na frase “ela a fazia com dedicação”. É a perda da capacidade de compreender a linguagem escrita ou falada. Pensando bem, talvez eu tenha afasia, afinal, tenho grandes dificuldades em compreender o que dizem Nietzsche e seus companheiros.

“Concatenação” não é nada mais que uma palavra difícil para dizer ligação, nexo.

Heuréka! Se você descobriu algo, acaba de praticar a “heurística”. (Será ela praticável? É um verbo? Um substantivo? Descobri! Substantivo feminino])

Mesmo as palavras que eu achava que sabia, na verdade (mas o que é a verdade?), têm outro significado. Não lembrava mais que “estela”, além de ser também um nome próprio que acho bonito, é uma coluna, pedra ou pedaço de madeira destinado a ter inscrições.

Suspiro... Quanto mais eu leio textos técnicos, mais eu tenho noção do tamanho da minha ignorância, se é que é possível medi-la. Há alguma área do conhecimento que a mensure?

Para mim, ciências ocultas não são aquelas cujo conhecimento não é revelado a qualquer um, como a alquimia, mas todas aquelas que se escondem atrás da minha falta de saber.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Piolhenta


Piolho. Só de ouvir essa palavra, a cabeça começa a coçar. Quem não se coça ao escutar é uma pessoa extremamente controlada ou não sabe o que é pegar piolho.
“Se piolho fosse boi, estaríamos ricos!”, pensavam meus pais toda vez que iam me buscar na creche e a ‘tia’ dizia ao me entregar no final da tarde: “A Carolina está com uma boiada”.

Quem nunca pegou piolho? Eu comecei pegando piolho no meu primeiro dia em casa, logo que nasci. Minha prima, poucos anos mais velha que eu, estava lá com a minha avó, ajudando minha mãe. Ela iniciou a criação, passou para a minha mãe e ela, por sua vez, passou para mim. Enquanto me amamentava, minha mãe viu o bicho passeando pela cabeça da sua princesinha. E foi aí que começou a minha saga. Mas, o importante é ter uma mãe que tem certificado de catadora de piolho! Ela estava preparada para a vida! É sério! Numa época o problema era tão, mas tão comum, que a prefeitura ofereceu aos professores um curso de ‘catação de piolho’, com direito a certificado.

Hoje conto e dou risada, mas já tive muita vergonha... Não pense que só pegam piolhos as crianças sujas e mal cuidadas. Essas, na maioria das vezes, são as responsáveis pela manutenção dos animais, pois, andam espalhando os bichos pelas cabeças mais limpinhas da sua turma na escola.

Meus piolhos ganharam fama. Meu sangue deve ser mesmo muito bom, pois os bichos eram expulsos e sempre voltavam. Criança sempre acha tudo muito grande, mas, eu tenho certeza que eles eram enormes, cresciam bem, alimentados com meus shampoos e suor. Numa ‘revista’ no prézinho, as professoras encontraram alguns ‘boizinhos’ na minha cabeça. Puseram os gigantescos num vidro transparente, de maionese, sem rótulo, com água, formol ou seja lá o que for aquele líquido no qual boiavam meus animais de ‘desestimação’. Passaram o pote para que todos vissem. Havia piolhos de outras pessoas ali também, mas nunca esqueço de ter ouvido alguém dizendo aos risos: “Olha a piolharada da Carol”. As professoras deram uma aula sobre higiene. E eu fui embora humilhada. Meu rebanho estava menor, mas sua fama era muito maior.

Eu sempre achei que os bichinhos tinham vontade própria. Achavam uma cabeça e, como astronautas que vão explorar o espaço, mudavam-se para lá. Mas, uma vizinha evangélica desfez este mito. Ela tinha o cabelo longo, quase chegando aos joelhos quando soltos. Imagine como seria para ela se livrar dos piolhos? Ela conta que numa ocasião, enquanto todos rezavam de olhos fechados em sua igreja, perdeu a concentração na oração e foi dar uma olhadinha no que acontecia. Avistou, então, uma mulher à sua frente, que tirava seus piolhos e distribuía aos outros irmãos. Isso sim é que é amor ao próximo, o verdadeiro sentido da partilha! Verdade ou não, nunca cheguei perto da mulher para comprovar a teoria.

Quando aparecíamos, eu ou minha irmã, com uma boiada, era uma cerimônia lá em casa. O primeiro que chegava era o sermão, que dizia para eu não andar mais com essa e aquela pessoa. O passo seguinte era passar o pente fino e ver os bichanos caindo no papel branco. Em seguida, aplicavam shampoo que eram ‘bons pra piolho’. Eles nunca funcionavam, então, minha mãe optava pelo vinagre. Cada feridinha ardia, mas o argumento era bom: “Melhor sofrer um pouco do que ser piolhenta”. A roupa de cama era trocada todos os dias, o pente fino passava sem cessar, até que a casa estivesse limpa para um novo grupo de imigrantes capilares.

Acho que meu cabelo era uma espécie de parque de diversões para piolhos. Imagino que cada fio de cabelo enrolado é uma montanha russa para estes insetozinhos indesejados. Ainda bem que os gostos mudam. Os piolhos já não curtem mais o meu sangue. Ufa!

A última vez que peguei piolho foi com cerca de 14 anos. Era dezembro e fui com um grupo de moradores do meu bairro fazer uma ação social em uma localidade muito pobre. Fomos todos de ônibus, pegamos um longo trecho de estrada de chão e lá encontramos centenas de pessoas que esperavam ansiosos pela festa. Levamos sanduíche, bolo, refrigerante, doces e presentes para as crianças. Além do Papai Noel, que distribuía os mimos, nós, voluntários, também ganhávamos abraços de agradecimento. Num desses abraços, ganhei também um presentinho, que se multiplicou rapidamente.

Coincidência ou não, nunca mais participei dessas coisas. Faço minhas doações, mas prefiro manter o anonimato na hora da entrega.

Piolhos imaginários passeiam pela minha cabeça agora. Melhor parar de falar essa palavra, pois a coceira está se agravando.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Por fora bela viola...

Existem situações que só uma sala de aula pode te proporcionar.
Tenho turmas de todas as idades e já precisei controlar as crises de riso diversas vezes, algumas devido ao que eu disse, outras pelo que ouvi.
Todo mundo tem um dia daqueles em que só lava a cara e acha que é o suficiente. Não é depressão, não é mau humor, é simplesmente falta de vontade de escolher roupa, arrumar o cabelo, fazer maquiagem.
Acordei num dia assim e segui em frente, como se ninguém fosse notar que eu posso ser mais assustadora do que normalmente já sou. Às 10h fui dar aula para uma turminha do barulho. Meus anjos têm entre 10 e 12 anos. O que eu acho mais incrível nesta turma é que as crianças falam como pequenos adultos, mas, noutros momentos são extremamente inocentes. Elas ainda discutem a existência de monstros, Papai Noel e outros personagens do gênero.
Comecei a aula e uma das alunas me interrompe como se tivesse algo muito importante para dizer:
- Tia, você não dormiu o suficiente essa noite, né?
Eu ri, constrangida. Eu havia dormido, mas também havia acordado com preguiça, muita preguiça. Prendi o cabelo e fui trabalhar de moletom.
- Dá para ver tia... Você está com uma cara acabada...
Eu não estava acabada até então, mas comecei a me sentir naquele momento. Dei risada e disse:
- Don’t worry! Não se preocupe... Na hora do almoço eu vou tomar um banho, soltar o cabelo, fazer maquiagem e volto a ser a teacher de sempre.
Então, para completar a cena um menino solta a observação que massageou meu ego (com uma luva de pregos!):
- Você pode até fazer isso tia, mas vai só ficar bonita por fora e continuar acabada por dentro, igual aquele ditado...
Deste dia em diante nunca mais saí de casa sem passar pelo menos um batonzinho. Posso até ser um pão bolorento, mas farei sempre o possível para enganar que sou bela viola... Saí da sala rindo no final da aula... "Crianças são r-e-a-l-m-e-n-t-e sinceras", concluí.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Troca

Deixei um emprego que me tirava a inspiração
Agora ando de bolsos vazios e coração cheio...

(Ressuscitei! Essa é uma daquelas situações que te fazem sentir mais aliviada do que peido quando é solto...)

sábado, 9 de abril de 2011

Epitáfio VIII


Perdeu a caixa preta.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Simpatia

Saiu de vermelho para espantar o mau-olhado
Acabou recebendo olhares mais mal-intencionados do que os que imaginara...

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Acordo ortográfico

Lá vai a centopeia sem o acento...

Parece manca.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Epitáfio (para não perder o costume)

Vive a morte como lhe apetece,
Ora nos assombra, ora nos esquece...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Choices

Tudo é questão de escolha, podemos ser só ou ser sol.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Aos 'musos inspiradores'

Não nego o que sinto nem o que senti.
Mas Alice Ruiz já disse e eu repito:

"Não fique confuso
muso de alguma obra-prima
pode ser tudo amor
à rima"

sábado, 5 de fevereiro de 2011

O que me faz sorrir?

Sorrio sempre,
Sorrio porque sou feliz.
Sorrio quando quero disfarçar a tristeza,
Sorrio para espantar as lágrimas,
Sorrio se estiver nervosa,
Sorrio lendo um livro,
Sorrio ouvindo música,
Sorrio quando ficamos olho no olho e não sei o que dizer,
Sorrio e dou gargalhadas conversando com os amigos,
Sorrio pensando em coisas boas,
Sorrio para mim mesma em frente ao espelho,
Sorrio sempre que faltam palavras,
Sorrio quando vejo alguém especial,
Sorrio quando vejo alguém comum fazendo algo especial,
Sorrio para as crianças,
Sorrio se alguém sorri para mim,
Sorrio quando estou encrencada,
Sorrio quando estou encantada,
Sorrio quando vejo o Victor chupar o dedão do pé...

********



Ganhei este selinho da Dani. Mas desrespeitei a regra, pois deveria dizer apenas duas coisas que me fazem sorrir. Agora indico cinco pessoas sorridentes para me contarem o que as faz sorrir: Daniel Sávio, Paulinha, Talita, Evelin e Tatiana.
Agora, elas devem fazer o mesmo. Contar o que as faz sorrir e espalhar outros sorrisos, indicando outras pessoas.

PS: Sobre o blog da Dani, o que me faz sorrir é o fato de que me identifico muito com as suas palavras, às vezes penso que poderiam ser minhas. Lembro também que ela montou o blog depois de conhecer o meu, o que me deixa lisonjeada e sorridente, é claro!

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Do msn: "Você está preparada para humor ácido e adulto?"

Papos produtivos numa manhã no msn:

- Minha amiga está querendo um amor de verdade. Se dissesse que queria um grande amor sugeriria um São Bernardo.

- Todo amor transforma. Eu acho que todo amor é verdadeiro até acabar.

- Não... O verdadeiro é o tipo de amor que marca, que transforma completamente a vida da pessoa...

- Nossa, essas últimas frases devem ser escritas em livro. Coisa filosófica! Todo amor transforma!

- Daqueles que parece que um tornado passou pela casa. O amor de um São Bernardo transforma de um jeito palpável.

- Todo relacionamento transforma as pessoas, uns mais, outros menos. E quando a gente está envolvido, sempre pensa que o amor é verdadeiro.

- Só o amor constrói... Ah! Vá pra puta que pariu, né?

- Ao meu ver, só o pedreiro constrói.

- Pronto, destrui mais um pilar filosófico da sociedade judáico-cristã ocidental. O amor de um São Bernardo destrói, juro! Aliado a tua tese onde pedreiro também constrói, fechou! Vamos construir uma nova ordem!

- Quebrando paradigmas. Vamos fundar uma nova filosofia de vida. Só não podemos nos afastar de todos os princípios das filosofias atuais. Será preciso manter as contribuições voluntárias para a manutenção da filosofia. Precisamos ser mantidos pela sociedade para continuarmos quebrando paradigmas. Eu diria que fariamos isso de forma muito melhor se estivessemos na praia agora, olhando a grandiosidade do mar e as maravilhas da natureza, comos os corpos sarados na areia.

- Pode apostar.

- Lembrei de um trocadilho muito massa... Beltrano pergunta a Fulano (tem que ser homem, acho) se conhece a Cicrana, ao que ele responde: Ô, e como!

- Huahuahuahuahauahua

- Sutil, né?

- Uma sutileza impressionante, algo comparável a uma passada de elefante.

- Quase um hipopótamo numa loja de cristais. Mas sabia que não é todo mundo que se liga?

- Já disse, nós somos os representantes da população pensante do globo, só não ficamos ricos ainda porque não estamos direcionando o pensamento para a coisa certa

- Uhu! Estou na fatia dos 0,5%. Preferimos falar merda.

- Exatamente. Pensamos no presente e não a longo prazo.

- O que é isso, longo prazo?

- Crediário das Casas Bahia.

- Não, isso é felicidade! 'A minha felicidade é o um crediário das Casas Bahia'. Lembra?

- Sim, sim... Uma calça fiorucci...

- Nossa!

- E o João do Caminhão? Faz tempo que não ouço falar dele... Sabe por onde anda?

- Você está preparada para humor ácido e adulto?

- Mande a bomba.

- Ele vendeu o caminhão e comprou uma zona de beira de estrada. Mas começou a 'ocupar' as meninas. Tá na merda agora. Duas engravidaram. Está pendurado com três trabalhistas. Chega de devaneios por enquanto. Preciso ir, bom almoço.

- Se passar lá pelo João evite parar. Sabe como é, a situação está feia. Bom apetite.

- Estranha essa mistura de bom apetite com a situação do João.

domingo, 16 de janeiro de 2011

Coisas que a gente ouve, fala, vê e ri, ri muito...

Eu estava dando aula. Era a turma de alunos mais bagunceira que eu tinha, a maioria universitários e adolescentes. Eu estava explicando a moeda americana.
- Nos Estados Unidos as moedas têm nomes. A de 25 centavos é quarter. A de dez centavos é dime. A de cinco é nickel e a de um centavo é pennie.
- Ah teacher, não tem nenhuma aí para mostrar pra nós?
- Olha, eu tenho uma caixa cheia de pennies em casa...
É claro que não consegui terminar a frase. Fiquei vermelha, roxa, verde. E a gozação (puts, outra palavra errada na hora errada!) foi geral.
- Nossa teacher, uma caixa? Uhulll!
- Coitados dos teus ex-namorados!

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Saí com amigas e como mulheres muito bem resolvidas, de salto, vestido, maquiagem e perfume importado, aproveitamos que o barzinho estava vazio, pegamos os tacos, as bolas e nos arriscamos numa partida de sinuca. Na primeira vez que achei o buraco a comemoração tomou conta do ambiente. Um jogo com emoção. Consegui derrubar quatro vezes em uma só partida a bola branca no buraco, tão boa é a minha mira.
Então, surge alguém a observar e eu digo:
“Olha, não é fácil colocar a bola na caçamba!”. “Claro que não... encaçambar a bola é impossível. Mas dá para colocar na caçapa, encaçapar”.
Gargalhadas, muitas gargalhadas, e o jogo seguiu em frente, com comemorações a cada bola encaçambada...

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Fui apresentada a um professor numa universidade, quando fui fazer intercâmbio. Poliglota, inteligentíssimo e apaixonado pelo Brasil. Misturou um pouco de francês e português e a frase soou assim:
- Meu cú está a doer.
Eu nem respondi, tinha só 15 anos e pensei que a vida sexual dele definitivamente não era da minha conta e não era um bom assunto para um primeiro encontro.
Na verdade, ele estava dizendo ‘cou’, ou seja, pescoço.
Às vezes o embromation não dá certo!

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Uma amiga minha estava fazendo intercâmbio e foi fazer uma apresentação na escola. Foi contar que na região onde ela mora há muito reflorestamento de pinus, que a quantidade de árvores em volta da casa dela é enorme. Ela foi enfeitar e disse: “There are many many big ‘pinas’ around my house”. Mal sabia ela que o nome da árvore era pine e que a forma como ela pronunciou acabou transformando a frase em: Há muitos, muitos pintos grandes em volta da minha casa.
A palestra era para adolescentes, colegas de classe. Lógico que todos interpretaram da pior maneira possível.

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Também no intercâmbio, desta vez comigo, na aula de sociologia. Era a professora mais velha da escola, cabelos totalmente brancos, sempre muito formal. Ela estava distribuindo uns papéis e esqueceu de entregar o meu. Então eu levanto a mão e digo, séria, como ela: “Mrs. Bradford, can I have a shit of paper?”. Ela arregalou os olhos e uma amiga minha interferiu. “She meant to say sheet, mam”. Eu pedi a ela uma merda de um papel e não uma folha de papel... Até hoje, em vez de dizer oi, minha amiga me cumprimenta dizendo ‘can I hava a shit of paper?’.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Beata


Passou a vida rezando.
Morreu.
Reencarnou.
Descobriu, então, que o céu não existe e que a terra é o inferno eterno ao qual está condenada.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Building up: juntando os pedaços

Descobriu que mesmo partido o coração não deixa de bater. Então, andou pelas cenas derrubando lembranças, para realocar os pedaços entregues a quem não quis guardá-los, para que eles pudessem voltar e formá-lo por inteiro.
Passou pelas ruas em que caminhavam juntos e deixou cair o aperto do abraço, o gosto do beijo roubado, o som da risada com a história da infância. Um pedacinho reconstruído. Nesta parte ficou ainda um arranhão, que nem vai perceber quem não soube da batida.
No barzinho que frequentavam, pediu outra marca de cerveja, mudou de mesa. Lavou as almofadas para sentir cheiro de amaciante e roupa secada em sol de verão. Trocou as músicas favoritas, conheceu novas bandas, apreciou o silêncio e não viu mais aquele filme. Refez esta parte com dedicação, entretanto, sentiu que ela ficou um pouco mais áspera, mas não menos viva.
Não comprou mais aquele molho e deixou de comer macarrão. Devolveu o livro e foi à biblioteca para escolher um novo assunto. Apagou as olheiras com maquiagem.
Continua a sorrir, embora o brilho do sorriso sincero e alegre ainda não tenha conseguido encontrar. Deve estar perdido em algum cômodo cuja chave ela não tem para entrar. Mas, cedo ou tarde, vai acabar tropeçando nele e voltará a se iluminar. Tampouco encontrou resposta para as perguntas. Então, decretou na sua história um elo perdido e parou de questionar.
Fez das suas lágrimas um passeio numa cachoeira tão linda, que ninguém será capaz de acreditar que tão bela paisagem tenha sido feita pela tristeza.
Um coração partido não é como um novo. Ele hesita em bater mais forte e divide as consequências com alguém que nada teve a ver com isso, mas que aceitou respeitar o seu passado. Um coração partido é reconstruído com os mesmos pedaços antigos, mas, agora tem nuances. Cada pedaço desenvolveu nova textura para sentir menos impacto. Tem diferença nas cores de suas peças, como aquela velha roupa manchada, mas que ainda pode ser usada.
Um coração partido divide a doçura dos sentimentos com o salgado das lágrimas e é preciso ter zelo para que não fique insosso e sem graça. Um coração partido terá sempre medo de ceder o lugar de seus pedaços a novas lembranças, porém sabe que amar é seu dever, que existe para isso, que esta é sua vocação. Sendo assim, mesmo os corações partidos voltarão sempre a amar.