quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A lista

Num dia desses, estava meu pai cortando grama num final de tarde, quando um papel do outro lado da cerca lhe chamou a atenção. Deixou de lado o que fazia e foi ver do que se tratava. De longe percebeu que era um papel de escola. Talvez pudesse ser algum trabalho perdido de uma criança da rua. O que teria ela dito à professora quando chegou à escola? “Não sei o que aconteceu, quando saí de casa estava na minha mochila”, iria afirmar, nervosa com a situação. “Meu cachorro comeu”, talvez dissesse para manter-se na desculpa clássica. “Não fiz”, poderia dizer, envergonhada, a pobre criança. “Sumiu! Juro que estava aqui”, seria outra opção. "Perdi", constataria com a nota também já perdida.

Ao aproximar-se, meu pai percebeu que a folha era de um caderno de caligrafia, o que indicava que, provavelmente, tratava-se de uma criança que estava aprendendo a escrever. Seriam essas suas primeiras linhas? Quem sabe a folha teria um pontilhado e a criança seguiria os traços até que pudesse repeti-los sozinha. Talvez a primeira linha fosse escrita com a caligrafia caprichada da primeira professora, a qual serviria de modelo para o pequeno estudioso.

Grande foi a surpresa quando se revelou o conteúdo daquele papel. Estava escrito dos dois lados. Um deles demorou muito a ser feito. Havia rabiscos, palavras escritas e reescritas. Ela deve ter dedicado muito tempo para escrever tudo aquilo. O tema exigia que pensasse cuidadosamente, demandava concentração.

Havia ali uma lista intitulada “Lista de quem gosto!” – assim, com ponto de exclamação. Efetivamente, três pessoas constavam nela. Alguns nomes foram rabiscados, não mereceram mais estar ali por algum motivo. Afinal, fazer uma lista de quem se gosta não é tarefa fácil. Já diz o ditado, os bons amigos podem ser contados nos dedos das mãos...



O conteúdo do verso era o mais interessante. “Lista de quem não gosto”. Ela só ‘gaguejou’ no título, escrevendo ‘quem’ duas vezes. Depois, a escrita fluiu, saiu fácil. Constam nesta lista quase vinte nomes, poucos rabiscados... Para finalizar ela destacou: “I só por hoje”. Isso mostra que ela considera a lista um documento dinâmico, absolutamente mutável. É possível que alguns nomes mudem de um lado para o outro do papel. Vai saber...



Em que fase mesmo as meninas e meninos são inimigos? Pois, pode-se ver que só há nomes masculinos. Será que era uma lista de grandes paixões inocentes da infância? Será que ela estava de coração partido antes mesmo de aprender a escrever? Quanto tempo ela esperou até que pudesse dominar o ABC para colocar no papel este sentimento?

Há de se concordar que é muito mais fácil falar de quem não se gosta. Algumas ofensas e mágoas podem ser realmente marcantes, quem dirá para o coração de uma criança. Na segunda lista ela não deu ouvidos ao ditado popular que aconselha: “Fale bem dos seus amigos. Dos inimigos não diga coisa alguma”.

A ideia de listar pessoas não é inédita, como mostra a música de Oswaldo Montenegro. Quem já cresceu e não é mais um jovem aprendiz das letras, talvez responda com mais facilidade à questão apresentada pelo compositor: “Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”. Quem arriscar a reflexão, provavelmente, irá responder esta e outras questões apresentadas por Oswaldo com uma carga muito maior de mágoas e tristeza do que a da criança que listou, em seu caderno de caligrafia e com letras minúsculas, os nomes daqueles que gosta ou não. À medida que se cresce, os erros tornam-se mais graves. Quem sabe a criança, a autora, um dia veja este texto e se reconheça, talvez queira responder.



Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?


Dedico o texto ao meu pai, que achou e guardou o papel que me/nos serviu de inspiração.

Caminhos tortos

Estou onde estou porque todos os meus planos deram errado. Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construí para chegar aonde eu queria ruíram uma após a outra. Fui então obrigada a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigada a fazer o que não queria.
O pensamento é de Rubem Alves, mas poderia ser meu e de muitas outras pessoas também...
Contudo, tomo a liberdade de continuá-lo, utilizando outra frase do mesmo autor: Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Minhas ciências ocultas

De dicionário aberto, empenho-me em algumas leituras. Se ele é o ‘Pai dos Burros’, sou eu, então, uma burrinha?

Descobri que “lato” não é o cachorro conjugando o verbo latir. Significa amplo, vasto.

“Afasia” não é um erro na frase “ela a fazia com dedicação”. É a perda da capacidade de compreender a linguagem escrita ou falada. Pensando bem, talvez eu tenha afasia, afinal, tenho grandes dificuldades em compreender o que dizem Nietzsche e seus companheiros.

“Concatenação” não é nada mais que uma palavra difícil para dizer ligação, nexo.

Heuréka! Se você descobriu algo, acaba de praticar a “heurística”. (Será ela praticável? É um verbo? Um substantivo? Descobri! Substantivo feminino])

Mesmo as palavras que eu achava que sabia, na verdade (mas o que é a verdade?), têm outro significado. Não lembrava mais que “estela”, além de ser também um nome próprio que acho bonito, é uma coluna, pedra ou pedaço de madeira destinado a ter inscrições.

Suspiro... Quanto mais eu leio textos técnicos, mais eu tenho noção do tamanho da minha ignorância, se é que é possível medi-la. Há alguma área do conhecimento que a mensure?

Para mim, ciências ocultas não são aquelas cujo conhecimento não é revelado a qualquer um, como a alquimia, mas todas aquelas que se escondem atrás da minha falta de saber.