segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Eufemismo

Yo: Pois é... Minha burrice me condena.
Usted: Você não é burra.
Yo: Não sou burra. Só sou menos inteligente que os demais.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A lista

Num dia desses, estava meu pai cortando grama num final de tarde, quando um papel do outro lado da cerca lhe chamou a atenção. Deixou de lado o que fazia e foi ver do que se tratava. De longe percebeu que era um papel de escola. Talvez pudesse ser algum trabalho perdido de uma criança da rua. O que teria ela dito à professora quando chegou à escola? “Não sei o que aconteceu, quando saí de casa estava na minha mochila”, iria afirmar, nervosa com a situação. “Meu cachorro comeu”, talvez dissesse para manter-se na desculpa clássica. “Não fiz”, poderia dizer, envergonhada, a pobre criança. “Sumiu! Juro que estava aqui”, seria outra opção. "Perdi", constataria com a nota também já perdida.

Ao aproximar-se, meu pai percebeu que a folha era de um caderno de caligrafia, o que indicava que, provavelmente, tratava-se de uma criança que estava aprendendo a escrever. Seriam essas suas primeiras linhas? Quem sabe a folha teria um pontilhado e a criança seguiria os traços até que pudesse repeti-los sozinha. Talvez a primeira linha fosse escrita com a caligrafia caprichada da primeira professora, a qual serviria de modelo para o pequeno estudioso.

Grande foi a surpresa quando se revelou o conteúdo daquele papel. Estava escrito dos dois lados. Um deles demorou muito a ser feito. Havia rabiscos, palavras escritas e reescritas. Ela deve ter dedicado muito tempo para escrever tudo aquilo. O tema exigia que pensasse cuidadosamente, demandava concentração.

Havia ali uma lista intitulada “Lista de quem gosto!” – assim, com ponto de exclamação. Efetivamente, três pessoas constavam nela. Alguns nomes foram rabiscados, não mereceram mais estar ali por algum motivo. Afinal, fazer uma lista de quem se gosta não é tarefa fácil. Já diz o ditado, os bons amigos podem ser contados nos dedos das mãos...



O conteúdo do verso era o mais interessante. “Lista de quem não gosto”. Ela só ‘gaguejou’ no título, escrevendo ‘quem’ duas vezes. Depois, a escrita fluiu, saiu fácil. Constam nesta lista quase vinte nomes, poucos rabiscados... Para finalizar ela destacou: “I só por hoje”. Isso mostra que ela considera a lista um documento dinâmico, absolutamente mutável. É possível que alguns nomes mudem de um lado para o outro do papel. Vai saber...



Em que fase mesmo as meninas e meninos são inimigos? Pois, pode-se ver que só há nomes masculinos. Será que era uma lista de grandes paixões inocentes da infância? Será que ela estava de coração partido antes mesmo de aprender a escrever? Quanto tempo ela esperou até que pudesse dominar o ABC para colocar no papel este sentimento?

Há de se concordar que é muito mais fácil falar de quem não se gosta. Algumas ofensas e mágoas podem ser realmente marcantes, quem dirá para o coração de uma criança. Na segunda lista ela não deu ouvidos ao ditado popular que aconselha: “Fale bem dos seus amigos. Dos inimigos não diga coisa alguma”.

A ideia de listar pessoas não é inédita, como mostra a música de Oswaldo Montenegro. Quem já cresceu e não é mais um jovem aprendiz das letras, talvez responda com mais facilidade à questão apresentada pelo compositor: “Quantas pessoas que você amava, hoje acredita que amam você?”. Quem arriscar a reflexão, provavelmente, irá responder esta e outras questões apresentadas por Oswaldo com uma carga muito maior de mágoas e tristeza do que a da criança que listou, em seu caderno de caligrafia e com letras minúsculas, os nomes daqueles que gosta ou não. À medida que se cresce, os erros tornam-se mais graves. Quem sabe a criança, a autora, um dia veja este texto e se reconheça, talvez queira responder.



Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais...
Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar!
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar...
Onde você ainda se reconhece
Na foto passada ou no espelho de agora?
Hoje é do jeito que achou que seria
Quantos amigos você jogou fora?
Quantos mistérios que você sondava
Quantos você conseguiu entender?
Quantos segredos que você guardava
Hoje são bobos, ninguém quer saber?
Quantas mentiras você condenava?
Quantas você teve que cometer?
Quantos defeitos sanados com o tempo
Eram o melhor que havia em você?
Quantas canções que você não cantava
Hoje assobia pra sobreviver?
Quantas pessoas que você amava
Hoje acredita que amam você?


Dedico o texto ao meu pai, que achou e guardou o papel que me/nos serviu de inspiração.

Caminhos tortos

Estou onde estou porque todos os meus planos deram errado. Isso é absolutamente verdadeiro. As pontes que construí para chegar aonde eu queria ruíram uma após a outra. Fui então obrigada a procurar caminhos não pensados. E aconteceu, por vezes, que nem mesmo segui, por vontade própria, os caminhos alternativos à minha frente. Escorreguei. A vida me empurrou. Fui literalmente obrigada a fazer o que não queria.
O pensamento é de Rubem Alves, mas poderia ser meu e de muitas outras pessoas também...
Contudo, tomo a liberdade de continuá-lo, utilizando outra frase do mesmo autor: Se eu pudesse viver minha vida novamente, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Piolhenta


Piolho. Só de ouvir essa palavra, a cabeça começa a coçar. Quem não se coça ao escutar é uma pessoa extremamente controlada ou não sabe o que é pegar piolho.
“Se piolho fosse boi, estaríamos ricos!”, pensavam meus pais toda vez que iam me buscar na creche e a ‘tia’ dizia ao me entregar no final da tarde: “A Carolina está com uma boiada”.

Quem nunca pegou piolho? Eu comecei pegando piolho no meu primeiro dia em casa, logo que nasci. Minha prima, poucos anos mais velha que eu, estava lá com a minha avó, ajudando minha mãe. Ela iniciou a criação, passou para a minha mãe e ela, por sua vez, passou para mim. Enquanto me amamentava, minha mãe viu o bicho passeando pela cabeça da sua princesinha. E foi aí que começou a minha saga. Mas, o importante é ter uma mãe que tem certificado de catadora de piolho! Ela estava preparada para a vida! É sério! Numa época o problema era tão, mas tão comum, que a prefeitura ofereceu aos professores um curso de ‘catação de piolho’, com direito a certificado.

Hoje conto e dou risada, mas já tive muita vergonha... Não pense que só pegam piolhos as crianças sujas e mal cuidadas. Essas, na maioria das vezes, são as responsáveis pela manutenção dos animais, pois, andam espalhando os bichos pelas cabeças mais limpinhas da sua turma na escola.

Meus piolhos ganharam fama. Meu sangue deve ser mesmo muito bom, pois os bichos eram expulsos e sempre voltavam. Criança sempre acha tudo muito grande, mas, eu tenho certeza que eles eram enormes, cresciam bem, alimentados com meus shampoos e suor. Numa ‘revista’ no prézinho, as professoras encontraram alguns ‘boizinhos’ na minha cabeça. Puseram os gigantescos num vidro transparente, de maionese, sem rótulo, com água, formol ou seja lá o que for aquele líquido no qual boiavam meus animais de ‘desestimação’. Passaram o pote para que todos vissem. Havia piolhos de outras pessoas ali também, mas nunca esqueço de ter ouvido alguém dizendo aos risos: “Olha a piolharada da Carol”. As professoras deram uma aula sobre higiene. E eu fui embora humilhada. Meu rebanho estava menor, mas sua fama era muito maior.

Eu sempre achei que os bichinhos tinham vontade própria. Achavam uma cabeça e, como astronautas que vão explorar o espaço, mudavam-se para lá. Mas, uma vizinha evangélica desfez este mito. Ela tinha o cabelo longo, quase chegando aos joelhos quando soltos. Imagine como seria para ela se livrar dos piolhos? Ela conta que numa ocasião, enquanto todos rezavam de olhos fechados em sua igreja, perdeu a concentração na oração e foi dar uma olhadinha no que acontecia. Avistou, então, uma mulher à sua frente, que tirava seus piolhos e distribuía aos outros irmãos. Isso sim é que é amor ao próximo, o verdadeiro sentido da partilha! Verdade ou não, nunca cheguei perto da mulher para comprovar a teoria.

Quando aparecíamos, eu ou minha irmã, com uma boiada, era uma cerimônia lá em casa. O primeiro que chegava era o sermão, que dizia para eu não andar mais com essa e aquela pessoa. O passo seguinte era passar o pente fino e ver os bichanos caindo no papel branco. Em seguida, aplicavam shampoo que eram ‘bons pra piolho’. Eles nunca funcionavam, então, minha mãe optava pelo vinagre. Cada feridinha ardia, mas o argumento era bom: “Melhor sofrer um pouco do que ser piolhenta”. A roupa de cama era trocada todos os dias, o pente fino passava sem cessar, até que a casa estivesse limpa para um novo grupo de imigrantes capilares.

Acho que meu cabelo era uma espécie de parque de diversões para piolhos. Imagino que cada fio de cabelo enrolado é uma montanha russa para estes insetozinhos indesejados. Ainda bem que os gostos mudam. Os piolhos já não curtem mais o meu sangue. Ufa!

A última vez que peguei piolho foi com cerca de 14 anos. Era dezembro e fui com um grupo de moradores do meu bairro fazer uma ação social em uma localidade muito pobre. Fomos todos de ônibus, pegamos um longo trecho de estrada de chão e lá encontramos centenas de pessoas que esperavam ansiosos pela festa. Levamos sanduíche, bolo, refrigerante, doces e presentes para as crianças. Além do Papai Noel, que distribuía os mimos, nós, voluntários, também ganhávamos abraços de agradecimento. Num desses abraços, ganhei também um presentinho, que se multiplicou rapidamente.

Coincidência ou não, nunca mais participei dessas coisas. Faço minhas doações, mas prefiro manter o anonimato na hora da entrega.

Piolhos imaginários passeiam pela minha cabeça agora. Melhor parar de falar essa palavra, pois a coceira está se agravando.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Por fora bela viola...

Existem situações que só uma sala de aula pode te proporcionar.
Tenho turmas de todas as idades e já precisei controlar as crises de riso diversas vezes, algumas devido ao que eu disse, outras pelo que ouvi.
Todo mundo tem um dia daqueles em que só lava a cara e acha que é o suficiente. Não é depressão, não é mau humor, é simplesmente falta de vontade de escolher roupa, arrumar o cabelo, fazer maquiagem.
Acordei num dia assim e segui em frente, como se ninguém fosse notar que eu posso ser mais assustadora do que normalmente já sou. Às 10h fui dar aula para uma turminha do barulho. Meus anjos têm entre 10 e 12 anos. O que eu acho mais incrível nesta turma é que as crianças falam como pequenos adultos, mas, noutros momentos são extremamente inocentes. Elas ainda discutem a existência de monstros, Papai Noel e outros personagens do gênero.
Comecei a aula e uma das alunas me interrompe como se tivesse algo muito importante para dizer:
- Tia, você não dormiu o suficiente essa noite, né?
Eu ri, constrangida. Eu havia dormido, mas também havia acordado com preguiça, muita preguiça. Prendi o cabelo e fui trabalhar de moletom.
- Dá para ver tia... Você está com uma cara acabada...
Eu não estava acabada até então, mas comecei a me sentir naquele momento. Dei risada e disse:
- Don’t worry! Não se preocupe... Na hora do almoço eu vou tomar um banho, soltar o cabelo, fazer maquiagem e volto a ser a teacher de sempre.
Então, para completar a cena um menino solta a observação que massageou meu ego (com uma luva de pregos!):
- Você pode até fazer isso tia, mas vai só ficar bonita por fora e continuar acabada por dentro, igual aquele ditado...
Deste dia em diante nunca mais saí de casa sem passar pelo menos um batonzinho. Posso até ser um pão bolorento, mas farei sempre o possível para enganar que sou bela viola... Saí da sala rindo no final da aula... "Crianças são r-e-a-l-m-e-n-t-e sinceras", concluí.

sábado, 9 de abril de 2011

Epitáfio VIII


Perdeu a caixa preta.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Simpatia

Saiu de vermelho para espantar o mau-olhado
Acabou recebendo olhares mais mal-intencionados do que os que imaginara...