sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Devorando letras

 


Gosto de comer e de ler. Às vezes faço as duas coisas ao mesmo tempo. Embora pareçam ações bem distintas, degustar um livro e uma refeição se assemelham. 

Penso em como é bom saborear as palavras, imaginá-las antes de conhecê-las, sentir seu cheiro e sua textura no contato inicial, assim como quem come crème brûlée pela primeira vez, depois de observá-lo, hesitante, na vitrine de doces. 

Prato na mesa, o rito começa com o estalo: um som que é grito e sussurro ao mesmo tempo, quando a cobertura crocante, aquela camada firme, todavia delicada, anuncia a ruptura sob o gesto da mão. Depois, é hora de encher a colher e contemplar a sobremesa, fragmentada, como cacos de vidro que jamais voltarão a ser o que eram. Então, sentir os pequenos pedaços tocarem a língua, o amargor do açúcar queimado misturando-se ao doce aveludado do creme, em uma experiência de intensa contradição. 

No ato da degustação, o tempo é relativo. Você não sabe se devora a sobremesa, aproveitando-a com voracidade, ou se a degusta devagar, prolongando cada segundo. Finda a porção, o instante não se encerra. Ao contrário, se prolonga com o vestígio de prazer que permanece na boca, apesar do fim.

"Oração para desaparecer" é um livro tal qual a sobremesa, uma obra para ser degustada, saboreada e memorizada. É um livro que pode ser lido paulatinamente, preservando a intensidade de cada página, ao longo de dias em que a curiosidade vai instigar seus pensamentos. Pode também ser devorado impetuosamente, nos poucos segundos que compõem uma tarde dedicada ao prazer. 

Entre tantas outras leituras, ler Socorro Acioli, cito a autora porque para mim autora e obra se fundem na imensidão das ideias, é um deleite, um respiro, um despertar. 

Eu não sei escrever. Tampouco sei cozinhar. É fato que de vez em quando me arrisco nas letras e nas panelas. Mas a verdade é que gosto mesmo é de degustar os bons livros e saborear os bons pratos.