
Piolho. Só de ouvir essa palavra, a cabeça começa a coçar. Quem não se coça ao escutar é uma pessoa extremamente controlada ou não sabe o que é pegar piolho.
“Se piolho fosse boi, estaríamos ricos!”, pensavam meus pais toda vez que iam me buscar na creche e a ‘tia’ dizia ao me entregar no final da tarde: “A Carolina está com uma boiada”.
Quem nunca pegou piolho? Eu comecei pegando piolho no meu primeiro dia em casa, logo que nasci. Minha prima, poucos anos mais velha que eu, estava lá com a minha avó, ajudando minha mãe. Ela iniciou a criação, passou para a minha mãe e ela, por sua vez, passou para mim. Enquanto me amamentava, minha mãe viu o bicho passeando pela cabeça da sua princesinha. E foi aí que começou a minha saga. Mas, o importante é ter uma mãe que tem certificado de catadora de piolho! Ela estava preparada para a vida! É sério! Numa época o problema era tão, mas tão comum, que a prefeitura ofereceu aos professores um curso de ‘catação de piolho’, com direito a certificado.
Hoje conto e dou risada, mas já tive muita vergonha... Não pense que só pegam piolhos as crianças sujas e mal cuidadas. Essas, na maioria das vezes, são as responsáveis pela manutenção dos animais, pois, andam espalhando os bichos pelas cabeças mais limpinhas da sua turma na escola.

Eu sempre achei que os bichinhos tinham vontade própria. Achavam uma cabeça e, como astronautas que vão explorar o espaço, mudavam-se para lá. Mas, uma vizinha evangélica desfez este mito. Ela tinha o cabelo longo, quase chegando aos joelhos quando soltos. Imagine como seria para ela se livrar dos piolhos? Ela conta que numa ocasião, enquanto todos rezavam de olhos fechados em sua igreja, perdeu a concentração na oração e foi dar uma olhadinha no que acontecia. Avistou, então, uma mulher à sua frente, que tirava seus piolhos e distribuía aos outros irmãos. Isso sim é que é amor ao próximo, o verdadeiro sentido da partilha! Verdade ou não, nunca cheguei perto da mulher para comprovar a teoria.

Acho que meu cabelo era uma espécie de parque de diversões para piolhos. Imagino que cada fio de cabelo enrolado é uma montanha russa para estes insetozinhos indesejados. Ainda bem que os gostos mudam. Os piolhos já não curtem mais o meu sangue. Ufa!
A última vez que peguei piolho foi com cerca de 14 anos. Era dezembro e fui com um grupo de moradores do meu bairro fazer uma ação social em uma localidade muito pobre. Fomos todos de ônibus, pegamos um longo trecho de estrada de chão e lá encontramos centenas de pessoas que esperavam ansiosos pela festa. Levamos sanduíche, bolo, refrigerante, doces e presentes para as crianças. Além do Papai Noel, que distribuía os mimos, nós, voluntários, também ganhávamos abraços de agradecimento. Num desses abraços, ganhei também um presentinho, que se multiplicou rapidamente.
Coincidência ou não, nunca mais participei dessas coisas. Faço minhas doações, mas prefiro manter o anonimato na hora da entrega.
Piolhos imaginários passeiam pela minha cabeça agora. Melhor parar de falar essa palavra, pois a coceira está se agravando.