terça-feira, 10 de agosto de 2010

A devil?

Se estou em meu inferno astral, isso faz de mim o diabo em pessoa?


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Grávida



Não sou mãe, mas já estive grávida.
Engravidei de esperança quando rezei com toda a minha fé.
Teci sapatinhos com linhas de sonhos para trilhar o meu caminho quando escolhi minha profissão.
Preparei o berço para aconchegar os amigos que ia encontrar.
Chorei de medo do que estava por vir.
Amei tanto que parecia não caber em mim.
Imaginei o futuro com todos os seus detalhes e cores, em plena harmonia, em perfeição.
Embalei desejos, cantei canções de ninar.

Gravidez de vida não acaba, renova-se.
E nesta espera não há homem ou mulher, estamos todos grávidos, bordando toalhinhas em ponto de esperança, concebendo dia-a-dia o nosso futuro.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Calo

Dor de amor não vivido é pior que calo.
Pois calo só dói no sapato apertado.
Não consegue ver, coração, que eu estou usando chinelo?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História em frases curtas

Ela andava cansada da mesmice, da mesma cara refletindo no espelho, dos mesmos sonhos escritos no diário, das mesmas frustrações nas mesas de bar com os amigos.
Resolveu fazer então uma loucura. Colocou a roupa mais bonita, o sapato mais alto, o perfume mais caro, passou batom vermelho e saiu de casa sorrindo. Percorreu um caminho diferente do habitual, faltou ao trabalho, comprou uma lingerie provocante. Tomou um sorvete calórico como há muito tempo não fazia e sorriu para um estranho. Sentou na praça e leu Leminski. Não atendeu ao telefone.

Voltou para casa apaixonada. Descobriu que a melhor companhia era ela mesma. Que cada detalhe formaria o todo. E que o todo era um amontoado de frações.
Passou a viver a vida assim: em frases curtas. Pequenas orações do dia-a-dia. Orações sem fé, porém profundas. Talvez profanas.

sábado, 3 de julho de 2010

Um faraó em meus braços

O dia estava planejado, daria tempo de fazer tudo e talvez até tirar uma soneca no intervalo. Eu precisava tirar fotos de uma exposição sobre o Egito que está acontecendo na Casa da Cultura. A matéria estava pronta, tudo deveria ser simples. A ideia era fotografar a montagem dos ambientes pelos organizadores, uma vez que o foco era na abertura da exposição. Porém, cheguei lá meia hora depois do combinado e as peças ainda não estavam na cidade. O carro estragou, o motorista se perdeu e tudo fugiu do planejado.

Aproveitei para verificar outra pauta no mesmo lugar e conversar um pouco com quem estava por lá. Até que quando eu estava desistindo, as peças chegaram. Todos desceram a escada do enorme e centenário casarão de madeira para matar a curiosidade. Tudo estava embalado em plástico bolha, porém, a visão da múmia era ainda pior que na foto. Deveria ter cerca de 1,70m de altura. Magra como só uma múmia sabe ser. Um cadáver milenar, enfim.

Então, começaram a descarregar. Eu queria logo desembrulhar aquilo tudo, fazer algumas fotos e conseguir chegar à academia no horário marcado, ao contrário do que eu sempre faço. Ainda não tinha almoçado e meu café da manhã foi um iogurte. Planejava passar no mercado, comprar um lanche e mandar as fotos. Mas já eram 14h30. Todos foram pegando as caixas e pacotes. Eu também estava disposta a ajudar, embora sem muita segurança, pois quem me conhece sabe o quanto sou atrapalhada e a minha capacidade incrível de cair.

Estava olhando para uma caixa lá no fundo, com pacotes pequenos. Achei que ela seria ideal para eu carregar, pois corriam menos risco de quebrar no caso de uma queda. Mas é claro que o universo conspirou contra a minha vontade. Já estou começando a aprender a desejar o contrário do que quero, quem sabe comece a dar certo. Todos já haviam subido com suas respectivas caixas e a Kombi ainda estava cheia delas. Porém, o motorista olhou para mim e percebeu a rainha à sua frente. Deve ter visto a própria Nefertari, a primeira esposa do harém do faraó Ramsés II, e o estendeu para mim.

O homem estava com pressa e com cara de quem não aceitaria discussão. Tentei argumentar que era pesado. “Pegue aí pra você ver como agüenta”, ele respondeu. “Ai meu Deus, que medo de carregar um negócio desse. E se eu quebro?”, lamentei. “Quebra nada, mas tenha cuidado”, ordenou.

Andei rezando, com medo de bater em qualquer coisa e fazer a múmia virar pó, como qualquer mortal. Quando cheguei à escada, alguém ia descer. “Hey! Espere aí que eu vou passar com o faraó”, disse eu.

Nem pude acreditar quando soltei a múmia no chão, inteira. Ele foi o maior governante do Egito, ficando por 70 anos no poder. Tentando disfarçar o meu horror, fui desembrulhando o bonitão para poder fazer a foto.

Quando contei ao meu pai e mostrei a foto do gatinho que carreguei nos braços ele disse: “Ui ui! Melhor virar pó do que ficar assim, com os outros carregando”. Acabou com meu ego, nem meu pai achou que o faraó se sentiria honrado em ser carregado por mim, a princesa Carolina do reinado inexistente.

Uma amiga minha já foi mais sensível: “Poderosa, hein!”, disse aos risos. “Credo, que horror! Não ficou com medo?”, falou outra. “Não cheira mal?”, perguntou alguém. Ele não cheirava mal, cheirava a museu, sabe? Aquele perfume que me causa uma reação (alérgica, é claro!).

Lembrar do cabelo ainda me dá coceira. E a expressão que devo ter feito certamente foi hilária.

Só posso terminar dizendo que nem todo mundo pode dizer que teve um faraó em seus braços! Ela era uma réplica, é claro. Mas se eu não contasse você nem desconfiaria, né?




sexta-feira, 11 de junho de 2010

Meu jeito de dizer que te amo*



Meu amor está em poemas ainda não escritos, em versos escondidos de mim mesma, em sonhos que ainda não viraram realidade.
Procuro ser gentil, sorrir e alegrar, afinal, não sei quem te conhece e quero que sempre ouça coisas boas sobre mim. Não o amo em cenários de pôr-do-sol. Eu o amo no dia a dia, na meia rasgada, na olheira, no cabelo oleoso. Faz parte de mim o verbo amar. Eu o amo quando quero ficar bonita. Eu o amo quando acordo e faço tudo o que programei, sempre esperando que algo me surpreenda e mude o rumo do meu dia. Eu o amo quando penso em seus defeitos e em tudo aquilo que eu jurava nunca suportar. Eu o amo quando cultivo o bom humor.
Eu o amo quando penso no presente que vou lhe dar. Eu o amo quando ouço uma música que me faz pensar em nosso amor. Eu o amo quando leio poesia. Eu o amo como ama a princesa ao seu príncipe, feliz para sempre, até que se feche o livro. Eu o amo quando suspiro nos filmes de finais felizes e quando sinto vontade de chorar se a mocinha não se dá tão bem assim.
Eu o amo quando choro de saudades de tudo aquilo que não vivi. Eu o amo quando reconheço que aquele que veio antes não era amor.
Eu o amo ainda sem o conhecer. Sorrio ao caminhar. Canto, pareço feliz. Afinal, até que chegue o momento, nunca saberemos - eu e ele - onde vamos nos encontrar. Por isso, é preciso estar preparada, perfumada, sorridente. Eu o amo com a alegria de quem já conhece o amor por ter certeza de que um dia ele será real.
Eu o amo no presente, embora ainda sejamos futuro.
Feliz dia dos namorados!

* Mais uma postagem coletiva para o Espaço Aberto.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lá no céu tem telefone?

Minha dentista era gente finíssima, contrariando o seu físico de gordinha, alta, com uma gargalhada que compete com a minha. A assistente só não era alta, no restante eram iguais. Uma loira, outra morena. Eu, paciente, sofria por não poder falar o tempo todo enquanto ela me tratava. Ir ao consultório era sempre divertido, apesar do barulho estressante do motor e da anestesia. Três gordas bem humoradas numa sala era fato que deixava os pacientes que aguardavam curiosos para saberem o motivo das risadas.

Eu conhecia a Maria desde criança. Aproximadamente 10 anos mais velha do que eu, sempre ouvia falar que ela estava estudando fora. A encontrava na rua durante as férias ou finais de semana, sempre simpática. Eu adorava o cachorro que ela tinha, um dálmata. O único que eu tinha visto até o lançamento do filme da Disney.

Volta e meia antes da consulta, ela ou a Joana, a assistente, ligava para saber se eu iria. Uma vez cheguei a chorar de vontade de rir quando eu estava sem poder falar e a Joana soltou essa: “Onde você compra calcinha, Carol? Porque outro dia eu fui comprar lingerie. A vendedora me apareceu com umas ‘carçolas de veia’. Pior é que tinha uma vermelha! Aaaaaii que raiva que me deu! De certo ela pensou que se eu levasse um fio dental tinha que atravessar a rua e comprar também um pé-de-cabra pro meu marido conseguir tirar a calcinha de lá...”. Quando consegui me controlar ela complementou: “Eu nem queria fio dental. Mas bandeira do Mengão o Zé já tem”.

Às vezes, no meio da consulta o celular dela tocava. Se era um avião decolando era o maridão ligando para dar um oi. “Quando é você posso atender”, dizia rindo. Então pedia para ele ligar mais tarde porque estava atendendo uma paciente importante. “Já carreguei ela no colo, acredita?. Eu estou ficando velha”, contava.

Eu sabia que ela estava doente. Não parecia nem comentava. Quinze dias antes fui até lá para buscar uma placa de silicone que havia encomendado e como o paciente faltou, sentei e rimos o tempo de uma consulta. Não lembro quem ligou naquela noite, só lembro da vontade de chorar. De manhã fui ao velório. “A gente sabia que era grave, mas esperava que fosse aí mais uns 10 anos, sei lá”, disse o pai dela inconformado para nós. Chorei.

Sou medrosa, mas pela primeira vez na vida não tive medo de sentar perto do caixão. Ela era minha amiga e não havia lugar mais longe. Fiquei bem na altura das suas mãos. Elas estavam inchadas, enormes como eu nunca havia visto. Fiquei olhando as pessoas que chegavam perto, as que choravam, as que rezavam, as que faziam carinho. Viajando nos pensamentos sobre a brevidade da vida, eu lembrava das suas gargalhadas. Ela parecia sorrir, deixando um resquício de vida àquela palidez. Soube, ouvindo as conversas alheias, que dias depois do nosso último encontro ela foi para o hospital. Fiquei triste por não saber.

Então, no bolso do meu casaco vermelho o celular vibrou. Era um modelo de flip. Eu estava desempregada, então achei melhor ver quem estava ligando antes de desligar. Neste momento eu tenho certeza que ouvi a gargalhada inconfundível. No identificador apareceu: “Maria dentista chamando”.

Olhei para ela, olhei para o aparelho. Olhei para ela, olhei para o aparelho. Repeti o gesto mais três vezes, pelo menos. Nas mãos dela um terço, nenhum movimento. Saí de lá com os olhos arregalados - só minha mãe que estava perto sabe dizer o tamanho do susto. Atendi: “Oi Carol, é a Joana. Queria te...”. “Oi Jo, eu sei! Já estou aqui. Obrigada por ligar”. “Ai que bom, ela te queria tão bem”.

Voltei e não pude deixar de rir. “Meu celular nunca toca e quando toca é o morto me chamando para o próprio velório... Só você, né?”, pensei.

Sei lá se no céu tem internet, banda larga, se lê blog ou pensamento. Só tenho certeza que está rindo. Deve ter combinado tudo com a Joana pra garantir uma piada pra contar a São Pedro.