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segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lá no céu tem telefone?

Minha dentista era gente finíssima, contrariando o seu físico de gordinha, alta, com uma gargalhada que compete com a minha. A assistente só não era alta, no restante eram iguais. Uma loira, outra morena. Eu, paciente, sofria por não poder falar o tempo todo enquanto ela me tratava. Ir ao consultório era sempre divertido, apesar do barulho estressante do motor e da anestesia. Três gordas bem humoradas numa sala era fato que deixava os pacientes que aguardavam curiosos para saberem o motivo das risadas.

Eu conhecia a Maria desde criança. Aproximadamente 10 anos mais velha do que eu, sempre ouvia falar que ela estava estudando fora. A encontrava na rua durante as férias ou finais de semana, sempre simpática. Eu adorava o cachorro que ela tinha, um dálmata. O único que eu tinha visto até o lançamento do filme da Disney.

Volta e meia antes da consulta, ela ou a Joana, a assistente, ligava para saber se eu iria. Uma vez cheguei a chorar de vontade de rir quando eu estava sem poder falar e a Joana soltou essa: “Onde você compra calcinha, Carol? Porque outro dia eu fui comprar lingerie. A vendedora me apareceu com umas ‘carçolas de veia’. Pior é que tinha uma vermelha! Aaaaaii que raiva que me deu! De certo ela pensou que se eu levasse um fio dental tinha que atravessar a rua e comprar também um pé-de-cabra pro meu marido conseguir tirar a calcinha de lá...”. Quando consegui me controlar ela complementou: “Eu nem queria fio dental. Mas bandeira do Mengão o Zé já tem”.

Às vezes, no meio da consulta o celular dela tocava. Se era um avião decolando era o maridão ligando para dar um oi. “Quando é você posso atender”, dizia rindo. Então pedia para ele ligar mais tarde porque estava atendendo uma paciente importante. “Já carreguei ela no colo, acredita?. Eu estou ficando velha”, contava.

Eu sabia que ela estava doente. Não parecia nem comentava. Quinze dias antes fui até lá para buscar uma placa de silicone que havia encomendado e como o paciente faltou, sentei e rimos o tempo de uma consulta. Não lembro quem ligou naquela noite, só lembro da vontade de chorar. De manhã fui ao velório. “A gente sabia que era grave, mas esperava que fosse aí mais uns 10 anos, sei lá”, disse o pai dela inconformado para nós. Chorei.

Sou medrosa, mas pela primeira vez na vida não tive medo de sentar perto do caixão. Ela era minha amiga e não havia lugar mais longe. Fiquei bem na altura das suas mãos. Elas estavam inchadas, enormes como eu nunca havia visto. Fiquei olhando as pessoas que chegavam perto, as que choravam, as que rezavam, as que faziam carinho. Viajando nos pensamentos sobre a brevidade da vida, eu lembrava das suas gargalhadas. Ela parecia sorrir, deixando um resquício de vida àquela palidez. Soube, ouvindo as conversas alheias, que dias depois do nosso último encontro ela foi para o hospital. Fiquei triste por não saber.

Então, no bolso do meu casaco vermelho o celular vibrou. Era um modelo de flip. Eu estava desempregada, então achei melhor ver quem estava ligando antes de desligar. Neste momento eu tenho certeza que ouvi a gargalhada inconfundível. No identificador apareceu: “Maria dentista chamando”.

Olhei para ela, olhei para o aparelho. Olhei para ela, olhei para o aparelho. Repeti o gesto mais três vezes, pelo menos. Nas mãos dela um terço, nenhum movimento. Saí de lá com os olhos arregalados - só minha mãe que estava perto sabe dizer o tamanho do susto. Atendi: “Oi Carol, é a Joana. Queria te...”. “Oi Jo, eu sei! Já estou aqui. Obrigada por ligar”. “Ai que bom, ela te queria tão bem”.

Voltei e não pude deixar de rir. “Meu celular nunca toca e quando toca é o morto me chamando para o próprio velório... Só você, né?”, pensei.

Sei lá se no céu tem internet, banda larga, se lê blog ou pensamento. Só tenho certeza que está rindo. Deve ter combinado tudo com a Joana pra garantir uma piada pra contar a São Pedro.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Desculpe, foi engano.

Mais uma prestaçãozinha para o inferno eu paguei, mas não consegui resistir. A maldade às vezes toma conta de mim...

Na noite anterior eu sai e cheguei em casa às 5h. Acordei às 8h. Passei o dia com sono e trabalhei muito. Lá pelas 20h, resolvi deitar e tirar uma soneca, antes de sair de novo. Minha irmã estava na cozinha. Tocou o telefone e ela atendeu:

- Alô? Não, não senhora. Este não é o número correto, não tem ninguém com este nome aqui. Isso. Aham. Tudo bem. Tchau.

Dez segundos depois:
- Alô? Não, a senhora ligou errado de novo. É. Não, não é da casa dela. De nada. Tchau.

Menos de um minuto mais tarde o telefone toca de novo.
- Ahhhh.... Eu não vou atender! - esbravejou minha irmã.

Então eu levantei com a voz séria e atendi:
- Funerária, boa noite!
- Crendios pai! - responderam do outro lado da linha.
- Alô? Posso ajudá-la?
Desligaram e eu enfim poderia dormir tranquila.

A história poderia terminar aqui. Porém, a pessoa não desistiu. Ela demorou uns três minutos para tomar coragem e ligou de novo.
- Funerária 24 horas, boa noite! Em que posso ajudá-la?
Ela pensou, demorou e disse:
- Olha só, aqui é a Joana do Guto. Este número não pode ser da funerária. Você está brincando comigo, né?
- Minha senhora, este telefone é da funerária 24 horas. Estamos nele há mais de 6 meses. A senhora está muito nervosa, eu posso ajudá-la? Quem foi que morreu? Já entrou em contato com o IML?
- Crendios pai! Eu tenho este telefone aqui que é da minha vizinha.
- Senhora, este número que você tem está errado. Este é o telefone da funerária 24 horas. Prestamos assistência à família, temos caixões, organizamos a missa e tudo o que for necessário para o enterro. A senhora precisa de algum dos nossos serviços?
- Não. Mas este telefone era da minha vizinha.
- ...
- Então ta bom.
- Agora a senhora já tem o nosso telefone, precisando, é só ligar.

Ela não ligou mais e eu também não dormi, pois a crise de riso depois que deixei de lado a voz de atendente de funerária me tiraram o sono. Ligar para um número e passar trote pode ser divertido, mas passar trote em quem liga não tem preço.

“Pura maldade e falta de paciência”, alguns dirão. Porém, o telefone desta casa é incrível. Pelo menos uma vez por dia ligam errado. Tem um tal de Agostinho que deve para as Pernambucanas e eles ligam direto para cobrar. Não acreditam que a linha não é mais dele. Outro dia foi uma senhora da Legião da Boa Vontade que passou 10 minutos fazendo com que eu me sentisse egoísta até que eu disse para ela que boa vontade eu tenho, só não tenho dinheiro. Trocando o 4 pelo 6 o meu número seria da loja Romeira e é incrível a capacidade das pessoas de confundir dois números tão diferentes.

Já estou pensando em fazer uma gravação, uma música do padre Zezinho no fundo e eu falando:
- Você ligou para a funerária 24 horas. Para escolher o modelo do caixão, tecle 1. Para encomendar uma coroa de flores, tecle 2. Para contratar uma carpideira para chorar no velório, tecle 3. Para informar término de mortadela para os sanduíches dos parentes que vieram de longe, tecle 4. Para informar a ressurreição do morto, tecle 5. Para falar com um de nossos atendentes, tecle 6.