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sábado, 3 de julho de 2010

Um faraó em meus braços

O dia estava planejado, daria tempo de fazer tudo e talvez até tirar uma soneca no intervalo. Eu precisava tirar fotos de uma exposição sobre o Egito que está acontecendo na Casa da Cultura. A matéria estava pronta, tudo deveria ser simples. A ideia era fotografar a montagem dos ambientes pelos organizadores, uma vez que o foco era na abertura da exposição. Porém, cheguei lá meia hora depois do combinado e as peças ainda não estavam na cidade. O carro estragou, o motorista se perdeu e tudo fugiu do planejado.

Aproveitei para verificar outra pauta no mesmo lugar e conversar um pouco com quem estava por lá. Até que quando eu estava desistindo, as peças chegaram. Todos desceram a escada do enorme e centenário casarão de madeira para matar a curiosidade. Tudo estava embalado em plástico bolha, porém, a visão da múmia era ainda pior que na foto. Deveria ter cerca de 1,70m de altura. Magra como só uma múmia sabe ser. Um cadáver milenar, enfim.

Então, começaram a descarregar. Eu queria logo desembrulhar aquilo tudo, fazer algumas fotos e conseguir chegar à academia no horário marcado, ao contrário do que eu sempre faço. Ainda não tinha almoçado e meu café da manhã foi um iogurte. Planejava passar no mercado, comprar um lanche e mandar as fotos. Mas já eram 14h30. Todos foram pegando as caixas e pacotes. Eu também estava disposta a ajudar, embora sem muita segurança, pois quem me conhece sabe o quanto sou atrapalhada e a minha capacidade incrível de cair.

Estava olhando para uma caixa lá no fundo, com pacotes pequenos. Achei que ela seria ideal para eu carregar, pois corriam menos risco de quebrar no caso de uma queda. Mas é claro que o universo conspirou contra a minha vontade. Já estou começando a aprender a desejar o contrário do que quero, quem sabe comece a dar certo. Todos já haviam subido com suas respectivas caixas e a Kombi ainda estava cheia delas. Porém, o motorista olhou para mim e percebeu a rainha à sua frente. Deve ter visto a própria Nefertari, a primeira esposa do harém do faraó Ramsés II, e o estendeu para mim.

O homem estava com pressa e com cara de quem não aceitaria discussão. Tentei argumentar que era pesado. “Pegue aí pra você ver como agüenta”, ele respondeu. “Ai meu Deus, que medo de carregar um negócio desse. E se eu quebro?”, lamentei. “Quebra nada, mas tenha cuidado”, ordenou.

Andei rezando, com medo de bater em qualquer coisa e fazer a múmia virar pó, como qualquer mortal. Quando cheguei à escada, alguém ia descer. “Hey! Espere aí que eu vou passar com o faraó”, disse eu.

Nem pude acreditar quando soltei a múmia no chão, inteira. Ele foi o maior governante do Egito, ficando por 70 anos no poder. Tentando disfarçar o meu horror, fui desembrulhando o bonitão para poder fazer a foto.

Quando contei ao meu pai e mostrei a foto do gatinho que carreguei nos braços ele disse: “Ui ui! Melhor virar pó do que ficar assim, com os outros carregando”. Acabou com meu ego, nem meu pai achou que o faraó se sentiria honrado em ser carregado por mim, a princesa Carolina do reinado inexistente.

Uma amiga minha já foi mais sensível: “Poderosa, hein!”, disse aos risos. “Credo, que horror! Não ficou com medo?”, falou outra. “Não cheira mal?”, perguntou alguém. Ele não cheirava mal, cheirava a museu, sabe? Aquele perfume que me causa uma reação (alérgica, é claro!).

Lembrar do cabelo ainda me dá coceira. E a expressão que devo ter feito certamente foi hilária.

Só posso terminar dizendo que nem todo mundo pode dizer que teve um faraó em seus braços! Ela era uma réplica, é claro. Mas se eu não contasse você nem desconfiaria, né?




segunda-feira, 7 de junho de 2010

Lá no céu tem telefone?

Minha dentista era gente finíssima, contrariando o seu físico de gordinha, alta, com uma gargalhada que compete com a minha. A assistente só não era alta, no restante eram iguais. Uma loira, outra morena. Eu, paciente, sofria por não poder falar o tempo todo enquanto ela me tratava. Ir ao consultório era sempre divertido, apesar do barulho estressante do motor e da anestesia. Três gordas bem humoradas numa sala era fato que deixava os pacientes que aguardavam curiosos para saberem o motivo das risadas.

Eu conhecia a Maria desde criança. Aproximadamente 10 anos mais velha do que eu, sempre ouvia falar que ela estava estudando fora. A encontrava na rua durante as férias ou finais de semana, sempre simpática. Eu adorava o cachorro que ela tinha, um dálmata. O único que eu tinha visto até o lançamento do filme da Disney.

Volta e meia antes da consulta, ela ou a Joana, a assistente, ligava para saber se eu iria. Uma vez cheguei a chorar de vontade de rir quando eu estava sem poder falar e a Joana soltou essa: “Onde você compra calcinha, Carol? Porque outro dia eu fui comprar lingerie. A vendedora me apareceu com umas ‘carçolas de veia’. Pior é que tinha uma vermelha! Aaaaaii que raiva que me deu! De certo ela pensou que se eu levasse um fio dental tinha que atravessar a rua e comprar também um pé-de-cabra pro meu marido conseguir tirar a calcinha de lá...”. Quando consegui me controlar ela complementou: “Eu nem queria fio dental. Mas bandeira do Mengão o Zé já tem”.

Às vezes, no meio da consulta o celular dela tocava. Se era um avião decolando era o maridão ligando para dar um oi. “Quando é você posso atender”, dizia rindo. Então pedia para ele ligar mais tarde porque estava atendendo uma paciente importante. “Já carreguei ela no colo, acredita?. Eu estou ficando velha”, contava.

Eu sabia que ela estava doente. Não parecia nem comentava. Quinze dias antes fui até lá para buscar uma placa de silicone que havia encomendado e como o paciente faltou, sentei e rimos o tempo de uma consulta. Não lembro quem ligou naquela noite, só lembro da vontade de chorar. De manhã fui ao velório. “A gente sabia que era grave, mas esperava que fosse aí mais uns 10 anos, sei lá”, disse o pai dela inconformado para nós. Chorei.

Sou medrosa, mas pela primeira vez na vida não tive medo de sentar perto do caixão. Ela era minha amiga e não havia lugar mais longe. Fiquei bem na altura das suas mãos. Elas estavam inchadas, enormes como eu nunca havia visto. Fiquei olhando as pessoas que chegavam perto, as que choravam, as que rezavam, as que faziam carinho. Viajando nos pensamentos sobre a brevidade da vida, eu lembrava das suas gargalhadas. Ela parecia sorrir, deixando um resquício de vida àquela palidez. Soube, ouvindo as conversas alheias, que dias depois do nosso último encontro ela foi para o hospital. Fiquei triste por não saber.

Então, no bolso do meu casaco vermelho o celular vibrou. Era um modelo de flip. Eu estava desempregada, então achei melhor ver quem estava ligando antes de desligar. Neste momento eu tenho certeza que ouvi a gargalhada inconfundível. No identificador apareceu: “Maria dentista chamando”.

Olhei para ela, olhei para o aparelho. Olhei para ela, olhei para o aparelho. Repeti o gesto mais três vezes, pelo menos. Nas mãos dela um terço, nenhum movimento. Saí de lá com os olhos arregalados - só minha mãe que estava perto sabe dizer o tamanho do susto. Atendi: “Oi Carol, é a Joana. Queria te...”. “Oi Jo, eu sei! Já estou aqui. Obrigada por ligar”. “Ai que bom, ela te queria tão bem”.

Voltei e não pude deixar de rir. “Meu celular nunca toca e quando toca é o morto me chamando para o próprio velório... Só você, né?”, pensei.

Sei lá se no céu tem internet, banda larga, se lê blog ou pensamento. Só tenho certeza que está rindo. Deve ter combinado tudo com a Joana pra garantir uma piada pra contar a São Pedro.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Jogo - narradora quase profissional!

Quem imaginou que seria hilário acertou! Quem não está entendendo nada deve ler o post abaixo antes de prosseguir.

Minha carreira como narradora de futebol em inglês é mais promissora que a de jornalista atualmente!

Foi engraçado demais! Imaginem a situação!

Levei uma cúmplice, é claro! Sentamos no lugar mais alto da arquibancada e logo um alemão me ligou. Ficamos no telefone o jogo inteiro, com direito a 10 minutos de intervalo. Ele não era antipático, mas não dava corda quando eu tentava conversar algo além do jogo.

Match started, anunciei eu. O Iraty era o home team da minha narração. O adversário era o away team.

Então seguiram as frases para indicar o que estava acontecendo: Home danger... Away danger... Player injured... Home yellow card... Away yellow card.... E a homarada em volta de mim olhava com um ar de deboche. Eles cochichavam. Imagino que eles falavam um para o outro que eu era maluca. "É uma lunática! Acha que está transmitindo o jogo para o exterior", eles deviam comentar.

O mais triste de tudo é que o jogo estava tosco, parado. Neste caso, quando nenhum time estava atacando, cobrando falta, nenhum jogador estava machucado ou nada atípico estava acontecendo, a cada 10 segundos - para que a empresa soubesse que eu ainda estava lá - eu deveria dizer SAFE. E eu parecia um papagaio falando safe, safe, safe, safe, safe... Às vezes eu variava e dizia: still safe.

Agora eu e Raquel já temos uma nova gíria. Quando as coisas estiverem meio paradas, sem novidades, elas estarão safe!

Depois de um tempo o meu interlocutor começou a rir de mim, da minha vibração. Pois eu tenho que admitir que foi a partida na qual eu mais prestei atenção e me envolvi. Eu expliquei que os dois times estavam jogando muito mal. Ele riu: "I can see that". Os torcedores ao meu lado, além de estarem indignados porque eu não parava de falar em inglês, ficavam fora de si quando me viam torcendo para o time adversário, mesmo estando no lado reservado aos torcedores do Iraty. Na verdade eu estava era torcendo para que a partida ficasse mais interessante, não importava de que forma.

Até agora eu ainda não entendi qual é a da empresa chinesa. Quem ficar curioso pode entrar e ver o site, http://spbo.com/live.htm. Com o tradutor do google dá para ver quais jogos estão rolando e tal. A ligação era internacional mesmo, então, não foi alguém me passando trote. Ou, se foi, era um milionário, pois é preciso ter grana para falar da Alemanha para o Brasil durante um jogo de futebol inteiro.

No final da partida meu simpático interlocutor disse: Great job! Have a nice evening! Somebody will call you about your payment. Bye!

Se o meu 'cenzão' vier mesmo, ficarei feliz e vou sair tomar umas com minha cúmplice! Ela merece!

Se não bastasse, no final da partida começou a chover. Ficamos as duas embaixo de uma sombrinha pequena, agarradinhas! Para não perder o bom humor eu a pedi em casamento. "Raque, eu sempre te amei, só estava aguardando o momento certo para te dizer isso. Acho que ele chegou, pois estamos aqui, molhadas, na chuva, agarradinhas". Ela disse que vai pensar. Alguns machistas ouviram e nos olharam com uma cara de 'era visto, mulher no estádio só poderia ser sapatão!'. Nos divertimos. Rimos muito.

Então, já a uma quadra do estádio, lembrei que talvez meu primo estivesse por lá. Dito e feito, o vimos entrando no carro. Saimos correndo, gritando, pedindo carona. Ficamos a menos de dois metros dele e ele saiu, não nos viu - ou talvez esteja rindo até agora por ter nos deixado na chuva. Um ciclista que estava logo atrás de nós gargalhou ao ver a cena.

Para finalizar, quando já estávamos perto de casa, um arco íris surgiu no céu. Foi um brinde do céu à nossa união gay que terminou assim que a chuva parou de cair e nós desarmamos o guarda-chuva!

Foi um dia atípico! Se ninguém me ligar, se nada acontecer, ele termina aqui. Agora vou ver um filme porque hoje eu mereço ficar safe por um tempo!

Beijos