quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dê tempo ao tempo

Passa, tudo passa.
Passa o conselho,
Passam as lágrimas,
Passa o passo,
Passo o poste,
Passa a posse.
Passa o que posso.
Passa o que penso.
Passado já passou.
Futuro não chegou.
Passou o amor,
Passou e não parou.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Desculpe, foi engano.

Mais uma prestaçãozinha para o inferno eu paguei, mas não consegui resistir. A maldade às vezes toma conta de mim...

Na noite anterior eu sai e cheguei em casa às 5h. Acordei às 8h. Passei o dia com sono e trabalhei muito. Lá pelas 20h, resolvi deitar e tirar uma soneca, antes de sair de novo. Minha irmã estava na cozinha. Tocou o telefone e ela atendeu:

- Alô? Não, não senhora. Este não é o número correto, não tem ninguém com este nome aqui. Isso. Aham. Tudo bem. Tchau.

Dez segundos depois:
- Alô? Não, a senhora ligou errado de novo. É. Não, não é da casa dela. De nada. Tchau.

Menos de um minuto mais tarde o telefone toca de novo.
- Ahhhh.... Eu não vou atender! - esbravejou minha irmã.

Então eu levantei com a voz séria e atendi:
- Funerária, boa noite!
- Crendios pai! - responderam do outro lado da linha.
- Alô? Posso ajudá-la?
Desligaram e eu enfim poderia dormir tranquila.

A história poderia terminar aqui. Porém, a pessoa não desistiu. Ela demorou uns três minutos para tomar coragem e ligou de novo.
- Funerária 24 horas, boa noite! Em que posso ajudá-la?
Ela pensou, demorou e disse:
- Olha só, aqui é a Joana do Guto. Este número não pode ser da funerária. Você está brincando comigo, né?
- Minha senhora, este telefone é da funerária 24 horas. Estamos nele há mais de 6 meses. A senhora está muito nervosa, eu posso ajudá-la? Quem foi que morreu? Já entrou em contato com o IML?
- Crendios pai! Eu tenho este telefone aqui que é da minha vizinha.
- Senhora, este número que você tem está errado. Este é o telefone da funerária 24 horas. Prestamos assistência à família, temos caixões, organizamos a missa e tudo o que for necessário para o enterro. A senhora precisa de algum dos nossos serviços?
- Não. Mas este telefone era da minha vizinha.
- ...
- Então ta bom.
- Agora a senhora já tem o nosso telefone, precisando, é só ligar.

Ela não ligou mais e eu também não dormi, pois a crise de riso depois que deixei de lado a voz de atendente de funerária me tiraram o sono. Ligar para um número e passar trote pode ser divertido, mas passar trote em quem liga não tem preço.

“Pura maldade e falta de paciência”, alguns dirão. Porém, o telefone desta casa é incrível. Pelo menos uma vez por dia ligam errado. Tem um tal de Agostinho que deve para as Pernambucanas e eles ligam direto para cobrar. Não acreditam que a linha não é mais dele. Outro dia foi uma senhora da Legião da Boa Vontade que passou 10 minutos fazendo com que eu me sentisse egoísta até que eu disse para ela que boa vontade eu tenho, só não tenho dinheiro. Trocando o 4 pelo 6 o meu número seria da loja Romeira e é incrível a capacidade das pessoas de confundir dois números tão diferentes.

Já estou pensando em fazer uma gravação, uma música do padre Zezinho no fundo e eu falando:
- Você ligou para a funerária 24 horas. Para escolher o modelo do caixão, tecle 1. Para encomendar uma coroa de flores, tecle 2. Para contratar uma carpideira para chorar no velório, tecle 3. Para informar término de mortadela para os sanduíches dos parentes que vieram de longe, tecle 4. Para informar a ressurreição do morto, tecle 5. Para falar com um de nossos atendentes, tecle 6.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A viagem das letras

Eu sempre defendi a ideia de que rodoviárias são lugares incríveis para passar o tempo. Vê-se de tudo.

Já era mais de meia noite. O pouco movimento na rodoviária - cena de tantos crimes - me assustava um pouco. Talvez até mais do que eu imaginava, pois qualquer aproximação me deixava alerta.

Uma moça de vestido preto e sapatos azuis como os que eu gostaria de ter aguardava ansiosamente a chegada de alguém. Ela andava de um lado para o outro, mostrando o bom gosto para quem quisesse ver. As unhas pintadas de vermelho demonstravam a sua personalidade forte. Por um momento eu quis ser aquela pessoa.

Um moço bonito perdeu o seu charme limpando o nariz.

De forma improvável, um cabeludo, barbudo, sorriso largo e fala mole me acalmou. Ele fazia o estilo que assustava criancinha, mas eu, com mais cinco minutos, talvez saísse apaixonada. “Eu escrevo poesia”, disse ele, entregando-me um livreto home made. Aquele charme de poeta alternativo... Xerocado, seis folhas de um certo bom gosto pelas palavras que me envolveu. Cortado à régua, o papel estava arrepiado nas pontas. “Pode ler à vontade”. Eu li e devolvi.
Mochila nas costas, fazia o tipo hippie que sempre se aproxima de mim. Ninguém nunca viu um hippie dar presente. Mas eu tenho um presente de hippie. Eles gostam de mim. “Eles não têm preço fixo. A gente está tentando inteirar o dinheiro da passagem, sabe como é...”. Dei-lhe um real que eu gastaria num café, mas economizei porque o local onde o compraria já estava fechado. Os versos desviaram a atenção da política que eu estava lendo e afrouxei um pouco a mordida - mania feia que eu não consigo evitar quando estou tensa. Ele se foi e eu fiquei com os versos soltos de um poeta que passou rapidamente.

"Quando falava o que penso
Me chavamam de louco
Quando fiquei calado
Reclamavam do silêncio
Hoje minto o que sinto
E me chamam de poeta"
Carlos Taepo


Fui ao banheiro. Uma moça perdeu o ônibus e precisava de quatro reais para comprar outro bilhete e garantir a viagem. Parecia sincera. Dei-lhe os quarenta centavos que tinha e depois fiquei pensando de deveria ter dado o restante. Coloquei-me em seu lugar e por um momento minha consciência pesou, pensando na citação bíblica que há muito não ouvia: “Não dê o que te sobra, mas o que o outro precisa”. Se assim for, talvez aqueles quarenta centavos tenham sido uma parte da prestação da minha passagem para o inferno. Não a vi mais e logo o peso passou. Talvez ela tenha conseguido o dinheiro. Se era sincera, pode ser que estivesse chorando em algum canto. Se fosse esperta, talvez estivesse utilizando meus quarenta centavos para fazer festa. Quem sabe ligou para a mãe e deu um jeito em tudo isso.

Um casal gay desceu do carro e deixou uma mala no guarda-volume. Se o carro tem porta malas, até agora fiquei pensando porquê. O que havia naquela mala? Por que não podiam carregá-la?

Um senhor careca, cinqüentão, usando terno e com a voz muito grave fala sobre diversos assuntos com o casal que o levou até lá. Já falou mal da rodoviária, do trabalho e perguntou do cachorrinho que não sei quem arranjou. No final das contas, ele sentou ao meu lado no ônibus, mas eu isso eu só fui saber depois. Ele roncava tanto quanto falava.

O rapaz ao meu lado está curioso. Tenta ler o que eu escrevo. Não é nada, moço. São essas letras que me perseguem. No trabalho, elas me cansam. No ócio, me relaxam.

domingo, 8 de novembro de 2009

Fernanda Young é gostosa (de ler)

Fernanda Young na Playboy foi uma grande decepção. Não, eu não vi as fotos e não é com a beleza (ou falta dela) que eu estou decepcionada. Mas com a atitude daquela que eu considerava uma celebridade diferente da maioria. No Twitter, o editor da revista afirmou que ela era a maior gostosa, embora muitos duvidassem, especialmente as mulheres.

Talvez ela tenha aceitado o convite para mostrar que mesmo aquelas que são diferentes da maioria podem se encaixar. Talvez o prazer de ser o desejo de muitos homens a tenha convencido. Ela afirmou que gostaria de vender mais que uma Big Brother. Talvez tenha sido apenas o dinheiro.

Ela escreveu as suas 10 razões http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL1301774-9798,00-FERNANDA+YOUNG+ASSUME+QUE+VAI+POSAR+NUA+PARA+A+PLAYBOY.html e nenhuma delas me convenceu! Concordo com um Big Brother, que saiu em defesa das suas e disse: “Antes tivessem mais BBB's. Afinal, sensualidade ‘papo cabeça’ não rola. Cada um na sua”.

Na capa, a cara que era para ser sensual parece mais de uma pessoa sufocada pelo modelito de cintura apertada, cintura tão fina que não sei se é real ou obra do Photoshop...

Enfim, eu preferia que Fernanda Young continuasse gostosa de ler e só.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Campanha - Sonhe com o meu namorado

Outro dia minha mãe andou sonhando que eu estava namorando. Diz ela que o cara era loiro, alto, bonitão.

- Então ele era gostosão, mãe? - perguntei.

- É... Nessa linguagem de vocês...

Hoje recebi de uma amiga um e-mail.

“Carol, Carolzinha, Carolzona...
O motivo deste email é que sonhei contigo. A noite inteiraaaa, sua chata! Nem pra dar um espaço para o Cauã Reymond (é assim que se escreve???). Pois é, sonhei com você e com a Lígia! A noooiiiiteee inteeeiraaaa. Até acordei cansada das nossas aventuras.
Bem, sonhei que era o meu aniversário e que estava chovendo, não havia nada pra fazer... enfim, e vocês tentavam levantar o meu ânimo. Passamos o meu sonho procurando roupas, vagando pelas ruas molhadas de uma cidade qualquer (mistura de Guarapuava com Buenos Aires e pitadas de São Paulo – típicos sonhos de Michele) e você estava namorando! Quem? Não lembro, só sei que era um cara riquíssimo”.


Isso me intrigou. Então respondi:

“Huahuahuahuahu
Minha mãe também andou sonhando que eu estava namorando. Você já tem mais detalhes, ele é rico. Vou esperar o próximo sonho de alguém com mais alguma característica. Assim, enfim, identificarei o homem da minha vida. O difícil vai ser bater nas costas dele, me apresentar e explicar para ele como eu descobri que somos almas gêmeas”.


E ela sugeriu:

“Os sonhos com a sua "alma gêmea" dão para o blog, vai por mim. Dá pra colocar enquete ou pedir que a galera tente adivinhar as características do dito cujo”.

Sugestão aceita. Desta forma, está iniciada a campanha: Sonhe com o namorado da Carol e ajude-a a identificá-lo. Espero que tenhamos sorte. Espero os relatos ou, no mínimo, os comentários.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Invisível

Como muitas em todo o país, ela tinha o perfil Bolsa Família. Mal vestida, negra, cabelo ruim. Talvez se chamasse Maria. Era magra, tão magra que se pudéssemos ver suas canelas escondidas debaixo das calças largas, talvez não compreendêssemos como suas pernas conseguiam sustentá-la. Era pobre, não cheirava bem. Embora a sala estivesse cheia, ela parecia ser a única. Foi chamada de louca.

Todos se incomodaram enquanto a tal louca falava ao mesmo tempo que o prefeito. “Meu Deus, que desrespeito!” – resmungavam. Enquanto eu respondia mentalmente: “E quanto desrespeito ela já não passou na vida?”.

Quando um celular tocava - no aparelho que só ela via em sua mão - ela atendia a chamada. Contava ao ouvinte onde estava e o mantinha informada sobre tudo o que o prefeito dizia. Certa vez ficou brava, pois parece que era sempre a mesma pessoa que ligava. “Já não te disse que estou numa reunião importante? Pare de me ligar. Não posso parar o negócio aqui toda hora pra te atender". Alguns riram, outros ficaram constrangidos, afinal, enquanto ela sonhava que seu celular desviava a atenção da palestra, o deles realmente o fazia.

Enquanto o prefeito reclamava, cheia de boa vontade ela dizia: “Quando eu ganhar um milhão vou acabar com tudo isso. Você vai ver. Vocês todos vão ver. Vou dar um jeito nisso. Vou dar dinheiro pra todo mundo, mas é só pra quem merece”. Nesta hora, alguns previram que seus bolsos continuariam vazios.

Fico pensando em quantas vezes aquela senhora já foi invisível. Quiçá esta tenha sido a primeira vez que foi vista e ouvida.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Hoje acordei gorda

Levantei, olhei no espelho e constatei: hoje acordei gorda, feia, pobre, burra, infeliz e com o cabelo ruim. Tem dia que é assim, as rugas começam a aparecer. Os pneus estão calibrados. O manequim não entra. Os problemas não se resolvem.
Eu derrubei a carteira aberta e as moedas voaram pela rua. Ana Paula Padrão está na Record e eu aqui. Aquele aluno insuportável acordou de pé esquerdo. Falando em pés, bati minha unha encravada assim que levantei.
Tem dias que é assim, a gente acorda burra. Parece que tudo o que aprendemos ficou no travesseiro. Eu esqueci como se fala choramingar em inglês. Só lembrei agora que já não preciso mais disso. O entrevistado não ligou. A matéria não saiu. O computador não ajuda.

‘Hoje acordei gorda’ (Florence Stelle, editora Rocco) é um livro do qual gostei muito. Acordar gorda não é uma questão de manequim, é estado de espírito.