Como muitas em todo o país, ela tinha o perfil Bolsa Família. Mal vestida, negra, cabelo ruim. Talvez se chamasse Maria. Era magra, tão magra que se pudéssemos ver suas canelas escondidas debaixo das calças largas, talvez não compreendêssemos como suas pernas conseguiam sustentá-la. Era pobre, não cheirava bem. Embora a sala estivesse cheia, ela parecia ser a única. Foi chamada de louca.
Todos se incomodaram enquanto a tal louca falava ao mesmo tempo que o prefeito. “Meu Deus, que desrespeito!” – resmungavam. Enquanto eu respondia mentalmente: “E quanto desrespeito ela já não passou na vida?”.
Quando um celular tocava - no aparelho que só ela via em sua mão - ela atendia a chamada. Contava ao ouvinte onde estava e o mantinha informada sobre tudo o que o prefeito dizia. Certa vez ficou brava, pois parece que era sempre a mesma pessoa que ligava. “Já não te disse que estou numa reunião importante? Pare de me ligar. Não posso parar o negócio aqui toda hora pra te atender". Alguns riram, outros ficaram constrangidos, afinal, enquanto ela sonhava que seu celular desviava a atenção da palestra, o deles realmente o fazia.
Enquanto o prefeito reclamava, cheia de boa vontade ela dizia: “Quando eu ganhar um milhão vou acabar com tudo isso. Você vai ver. Vocês todos vão ver. Vou dar um jeito nisso. Vou dar dinheiro pra todo mundo, mas é só pra quem merece”. Nesta hora, alguns previram que seus bolsos continuariam vazios.
Fico pensando em quantas vezes aquela senhora já foi invisível. Quiçá esta tenha sido a primeira vez que foi vista e ouvida.
REZAR É O MELHOR REMÉDIO
Há uma semana
