segunda-feira, 29 de março de 2021

Par(t)ir

Escrevo porque a vida dói. E porque dói eu sei que [ainda] estou viva. 

A morte é um parto que dura a vida toda. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Velórios são para os vivos

Velórios são momentos únicos.  

No velório a tristeza impera, mas é também naquele ambiente que vemos os parentes e amigos que há muito tempo não encontrávamos. O velório é uma festa sem alegria. Os velórios são para os abraços. Os velórios são para os vivos. 

Na minha família não faltam histórias de velórios.

Ao velarmos uma tia muito amada, suas cunhadas discutiam, na alta madrugada, se poderiam ou não dormir, pois, por uma questão de flatulência incontrolável durante o sono, era possível que acabassem com a solenidade do momento. Não houve choro que não cessasse momentaneamente diante de tal diálogo. 

Minha irmã sempre erra o terço e eu, com as mãos no rosto, tento fingir que choro, quando rio da falha recorrente, praticamente uma tradição. Já sugeri a ela que tatue a Ave Maria nos punhos para evitar constrangimentos. 

No velório de um tio muito querido, sua nora, muito prestativa, pegou a chave da capela do cemitério para limpá-la. Disse aos parentes “de sangue” para não se preocuparem. A gaveta foi cuidadosamente escolhida, nem muito em cima, para não ter excesso de sol, nem muito embaixo, perto demais da terra. Asseou tudo para que a morada eterna recebesse o sogro. Na hora do enterro, a confusão: ela limpou a sepultura errada. Abriram o local certo às pressas e assim, entre sorrisos e lágrimas, nos despedimos do tio amado. Esse mesmo tio ficou alguns dias no hospital antes de falecer. Após o sepultamento, seu filho, que havia ido ao hospital para resgatar os pertences do pai, vai até minha tia com um embrulho. “Não sei o que fazer com isso”, diz, entregando à mãe. Ela abre, vê uma prótese e ri descontroladamente: “Seu pai nunca usou dentadura. Você deixou alguém banguela! ” A história provoca muitos risos sempre que é contada em família e as conversas seguem com outros feitos protagonizados pelo saudoso tio.

No velório relembramos as proezas de quem jaz e não pode mais relatá-las. Sempre tem alguém para contar um causo que fará todos rirem ou suspirarem orgulhosos e saudosos. Os mortos sobrevivem nas lembranças dos vivos.

Velórios são temperados com lágrimas e sorrisos. Velórios são sobre os abraços que podem ser dados e os que nunca mais serão possíveis.

Nos velórios amamos com toda a intensidade. Velório é momento de reflexão. Ali imaginamos como a vida será mais difícil, triste e sem graça sem esse alguém. 

Velórios são um rito de passagem. São dolorosos porque, uma vez fechada a sepultura, quem ali fica segue para a vida eterna e quem sai é condenado a voltar à vida terrena e tão incerta. 

A pandemia nos tirou o direito de velar nossos mortos e acalentar os vivos. Na pandemia a despedida (e a falta dela) é ainda mais triste. 

***

A quem perdeu alguém querido e não pôde ser consolado, desejo que as boas lembranças inundem seu coração e que em breve possamos nos abraçar.

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O cu da professora

 


Professor em sala de aula é rico. Não em dinheiro, é claro, mas em histórias para contar. São pérolas incomensuravelmente mais valiosas do que as raras joias das vitrines e leilões...

Em uma manhã clara e gélida de inverno, o sol entrava pela janela da sala de aula da velha escola. A poeira circulava magicamente, brilhando sob a luz do sol. As crianças, no auge de seus oito anos de idade, com galochas, gorrinhos e luvas, copiavam silenciosamente o conteúdo. Cada respiração era ouvida e vista, como se o calor das mentes efervescentes provocasse uma reação química em contato com o ar. Um dia perfeito, calmo e tranquilo para ensinar. A professora encheu o quadro, muitas contas e problemas com enunciados complexos para resolver.

Mas, toda sala tem aquele aluno malandro, que gosta de fazer piada e tem pavor de silêncio. Enganam-se os que pensam que com seus abraços e boas notas estarão para sempre na memória dos amados professores. Talvez em seus corações, mas não na memória. Pelo contrário, os terríveis, os agitadores e baderneiros é que serão para sempre lembrados.

Num momento de distração da professora, o menino levantou-se de sua carteira, foi até o quadro e circulou com giz colorido a sílaba CU, no meio da inofensiva palavra cálculos. Risos e cochichos surgiram, despertando a atenção da mestra. Protagonista de muitas histórias, a sílaba CU é tabu entre os professores mais pudicos. Por estes, culto, culpa, cultura, cuidado e acuse podem ser usadas sem restrições, mas as cuecas e cuscuz devem ser sempre evitadas pelo alvoroço que podem causar.

Mas ali, na turma da terceira série, na inocente palavra cálculos o cu gritava, destacado pelo menino. Assim que a professora percebeu, e com a serenidade que lhe é peculiar, falou: “Queridos, a sílaba CU é como qualquer outra e nos serve para escrever muitas palavras: cupom, currículo, curso, curtir, curral, cultivo, curva”. “Cuba também, né professora”, gritou um aluno (comunista, é claro!). “Curitiba”, disse outro, sonhando com a capital. “Cubo”, complementou a garota que se destacava em matemática. “Isso mesmo”, replicou a professora, com um sorriso de aprovação. “O nome correto para isso que o colega está falando é ânus e não cu”, explicou paciente. O silêncio imperou novamente diante da palavra tão perversa e daquela grande revelação. Algumas risadinhas tímidas escapavam, encolhidas atrás das pequenas mãozinhas enluvadas. Até que o protagonista da história quebra o silêncio e provoca gargalhadas incontroláveis: “Ai que chique! O cu da professora é ânus!”

PS: Se você, assim como eu, achava que cu tinha acento, saiba que me surpreendi ao ser corrigida: cu não leva acento. “A letra u só leva acento quando é a segunda vogal de um hiato”, dizem os gramáticos. Ou seja, usei o cu errado vida inteira. Verdade seja dita, o cu só encontra o a[ss]cento quando vai ao banheiro.

[Baseado em fatos reais... Como diria Manoel de Barros, só 10% é mentira, o resto é invenção]

Texto: Carolina Filipaki

Ilustração: Heleny Meiborg

(Publicado no Zine "Os", 2018)


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Um ipê em flor


 Eu amo os ipês. Talvez porque, assim como eu, eles florescem em setembro. Quando eu nasci, os ipês alegravam o mundo e todos os anos vibram amarelos, fazendo a vida setembrar. Dos muitos privilégios que tive, crescer em um lugar onde os ipês dominam as paisagens, é de longe o mais bonito. Meu coração é saudoso pelas amizades e pelos ipês, ambos por suas sombras acolhedoras e cores que trazem à minha existência.

Eu, tão fraca e insegura, admiro a força e a resiliência destas árvores. Ipês são professores. Os ipês trazem com eles a exuberância da primavera, mostrando ao inverno, que depois dos tempos difíceis, depois de perder suas folhas e expor suas entranhas, é preciso florescer. Ipês são imponentes e suas flores, mesmo caídas, compõem as mais belas paisagens. 

Quando vivencio grandes alegrias, minha mente se enternece e exulta, como brilham os meus olhos ao ver um ipê amarelo florido, contrastando com a grama verde e o céu azul. Não há no mundo visão mais singela e poética que a do ipê em flor.

Humana e, portanto, egoísta, sempre sonhei em ter um ipê para chamar de meu. Agora eu tenho. Lindo, ele ostenta suas primeiras flores em minha calçada e me presenteia em meu aniversário. Floresça sempre, meu ipê amarelo, brilhe alegre, seja primavera em pleno inverno para nos lembrar que a vida é linda. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

As lições do crochê


Eu fiz um gorro de crochê, pequeno, demorado e, aos meus olhos, lindo.
Ao tecê-lo entendi que um grande desafio exige paciência e que um trabalho pequeno pode ser um desafio colossal para uma aprendiz iniciante.
Entendi que a primeira experiência nem sempre é perfeita e, embora o resultado seja agradável, o percurso não é totalmente prazeroso.
Errei diversas vezes. Erros grotescos, erros pequenos, erros por falta de atenção. Alguns deles eu pude consertar sem maiores consequências, mas entendi também que às vezes é preciso recomeçar, trocar a agulha, o fio, repensar. Eu quis desistir e me irritei.
Eu mexia o fio infinitamente para lá e para cá. Passava-o por cima, por baixo, desmanchava os nós, mas o trabalho não rendia. A cada carreira finalizada, o media, na esperança de atingir o tamanho ideal. Então, notei que uma carreira sozinha não faz uma touca, mas o entrelaçamento cuidadoso do fio nos aquece.
Por fim, com o trabalho pronto, aprendi que há erros que apenas eu, que teci cada ponto daquele gorro, consigo notar. Outras falhas, somente os mais experientes conseguem identificar.
Eu decidi confeccioná-lo em um dia de muito frio. Ao terminá-lo, o sol brilhava e o calor nos aquecia. Se eu tivesse prestado atenção na lição da fábula da cigarra e da formiga, saberia que é durante o verão que devemos nos preparar para o inverno. 
Aos olhos da maioria é um simples gorro. Para mim, um processo, uma aprendizagem, uma conquista. Eu fiz um gorro de crochê e ao tecê-lo aprendi a viver.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

Infinitos


Eu moro em Irati, no interior do Paraná. Minha cidade tem 60 mil habitantes. Dentre eles, muitas pessoas que eu amo, grandes amigos, outros apenas conhecidos, alguns desafetos e outros com os quais meus caminhos nunca se cruzaram.

Hoje, oficialmente, somaram-se 60 mil pessoas no Brasil que perderam a vida para uma doença invisível e de nome esquisito, que muitos duvidam existir.

É como se todos os moradores da cidade, do campo e dos mais distantes lugarejos que integram Irati tivessem sumido do mapa, sem ninguém restante para contar nossas histórias.

Tem gente dizendo que é pouco em um contexto de 210 milhões de brasileiros. Mas, para mim, um, o número 1, quando representa uma vida, é muito. Mais do que muito, pode também ser tudo na vida de um outro alguém: uma mãe, um pai, um filho, um companheiro... 

Enfim, cada ser, em sua singularidade e pequenez, é o infinito na vida de alguém.

É na infinitude dos sentimentos abstratos e intocáveis que a vida se engrandece. É também na infinitude do sentimento de saudade que a dor é maior.

Eu lamento, me comovo e choro pelas 60 mil vidas.

Eu lamento, me comovo e choro pelos 60 mil infinitos que se findaram.   

domingo, 12 de abril de 2020

O carro do sonho


O carro do sonho ia passar pela minha rua. Isso nunca havia acontecido. Ouvi de longe a sua chegada. Anunciava sonhos de vários tamanhos e assegurava agradar as pessoas de todas as idades.
Desci as escadas correndo, pensando em todos os sonhos que poderia encontrar. Deixei a porta e o portão abertos por descuido, mas tenho certeza que era o destino deixando a passagem livre para os sonhos entrarem.

Quando ele dobrou a esquina, parecia-me um carro forte o suficiente para carregar os melhores sonhos do mundo. Era velho, amassado, batido, como um carro que carrega sonhos deveria ser. Se carregar sonhos fosse trabalho leve, não nos arrastaríamos a vida toda com(tra) alguns. Trazia na lataria remendada as marcas dos sonhos mais difíceis.

Corri ao seu encontro, afinal, não se pode esperar que os sonhos venham ao nosso portão. É preciso esforço para merecê-los. Cheguei ofegante e, assim que ele me viu, parou para mim. Desceu dali um senhor gordo, camisa aberta até o umbigo, suor escorrendo na testa, os pelos do peito saltavam para fora, mostrando em sua cor acinzentada que há muito tempo este senhor carregava os melhores sonhos do mundo em sua parati. Meu coração batia fora de ritmo e uma lágrima fazia-se pesada em meu olho. No fechar de uma pálpebra ela cairia como cataratas lavando meu rosto. Mas eu não piscava, talvez nem respirasse naquele momento infinito. Quando ele abrisse o porta-malas eu teria que escolher, dentre todos os sonhos que tinha, um, apenas um. Como escolher? Transpirava e tremia, ansiosa.

“Boa tarde, minha filha!”, ele me disse. Era como se o Tempo falasse comigo. Eu imaginava o Tempo como um senhor elegante, com um relógio de bolso, a nos controlar. Mas a vida é mestra em nos surpreender. O Tempo era estranho como o velho que eu via sentado na praça observando o tempo passar. “Temos poucas opções agora. Os sonhos são frescos e feitos todos os dias. No final da tarde é o que tem”. O Tempo me ameaçava dizendo que eu não teria muitas escolhas. “Nem sempre a vida nos dá opções”, pensei. Mas eu tive a certeza de que meu sonho estaria ali, porque a cada aurora meus sonhos se renovavam. Eram sonhos novos, como os que eu queria.

O porta-malas-sonhos da parati abriu-se rangendo, causando-me um arrepio na espinha. O cheiro doce da realização saia ali de dentro. Havia açúcar para todo lado. Sempre imaginei que as conquistas seriam doces e açucaradas, seriam um lambuzar-se e terminar satisfeita, com um bigode de açúcar e dedos lambidos. Os cestos estavam cobertos com toalhas xadrez, vermelhas e brancas, como em um piquenique perfeito, em um parque com sombras, grama verde e céu azul.   

“Vai querer de creme ou goiabada?”, indagou. “Gosto apenas dos sonhos de doce de leite”, respondi ainda tonta, golpeada pela desilusão e pelo odor de fritura. Voltei para casa de mãos vazias, peito arrasado e costas pesadas porque cabe a mim, apenas a mim, carregar o peso dos sonhos não realizados.