quarta-feira, 19 de março de 2014

Quando os anjos falam

O último adeus faz até os corações mais insensíveis esmorecerem.
Caminhamos com o grupo, ouvindo apenas o som dos paços pelo cemitério. Logo chegamos ao túmulo. Ficamos mais atrás, acompanhando de longe a cerimônia.
Ela tinha uma saúde de ferro, faltando poucos dias para seus 92 anos, sua lucidez impressionava. "Eu adoro cantar", ela contava, emendando uma reclamação: "Não sei por que na igreja não distribuem mais aquele livrinho Louvemos ao Senhor, era tão bom".
Lembrando disso, suas amigas de cantorias e missas soltaram a voz. "Não temas, segue adiante e não olhes para trás, segura na mão de Deus e vai". Foi então que vozinha fina e doce me questionou: "O que elas estão falando tão alto?". Aqueles olhos azuis inquisidores e a seriedade de seu rosto, em meio aos cabelos cacheados, me mostravam que eu não poderia deixar de responder. "É uma música. A vó Guenha gostava muito de cantar", disse eu. "Eu quelia ver". Diante daquele pedido, a peguei no colo para que pudesse ver o que estava acontecendo lá na frente. Mostrei as amigas de sua bisavó, que cantavam para se despedir dela da forma que mais gostava. "Você sabia que as pessoas que já estão molidas ficam nessas caixinhas?", disse-me, apontando para os túmulos, como quem conta um segredo que só ela sabia. "Aham", eu respondi, intimidada com a naturalidade que aquela pequena falava da morte. "Eu quelia ver a caixinha da bisa". "É ali na frente", mostrei.
Logo depois, as senhoras do coro decidiram cantar em polonês, a língua materna da minha tia avó. "Essa música era uma das que a dona Guenha mais gostava, ensinou até o netinho a cantar", explicou uma das senhoras antes de começar.
"E agora, o que elas estão falando?", questionou a pequena ainda em meu colo. "Elas estão cantando uma música em polonês que a vó Guenha gostava muito", respondi. "Gostava muito dessa música?", indagou novamente para ter certeza da resposta. "Sim, ela gostava muito dessa música". Então, como se compreendesse a solenidade daquele momento e soubesse que aquele era o último instante de sua bisa neste plano, sem saber uma única palavra em polonês, ela começou a cantarolar, seguindo o ritmo das amigas da avó. Cantava como se conhecesse a melodia. Segurei as lágrimas. Não se deve chorar com uma criança tão linda e esperta em seu colo.
Quando a canção terminou, seus olhinhos novamente me fitaram. "Você acha que ela gostou? Acha que ela está muito feliz?". Então compreendi que quando os anjos falam não há quem não se emocione. Sorri e concordei, ela certamente estava muito feliz.

Sem receios, apesar das minhas lágrimas, ela continuou. "Aquelas fotos são das pessoas que já estão molidas", apontou. "Sim, elas servem para que nos lembremos das pessoas que estão aqui", disse eu. "Hmmm... eu nunca vou esquecer", disse incisivamente. Logo depois bateu as asas, saiu do meu colo e correu para os braços do avô, curiosa para ver a "caixinha" da bisa.

Texto: Carolina Filipaki
Ilustração: Laércio Soares

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Anoiteceu

Já sinto o cheiro das estrelas e o brilho do orvalho.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Manoelando

A invenção é artística,
A mentira é prática.

(Inspirada em Manoel de Barros, 'Só dez por cento é mentira')

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Morreu Feliz

Hoje ao ler o jornal, como sempre por curiosidade, olhei o obituário. Entre muitas pessoas, entre João, José, Tereza e Soeli, morreu Feliz.
Teria ele realmente morrido alegre? Parecia-me muito novo para morrer com alegria. Apenas 54 anos. Será que tinha filhos, netos, esposa?
Imagino que ele tenha tido uma vida cheia de contradições. “Feliz está chateado hoje”, observaria sua mãe. “Feliz está doente”, diria a esposa ao ligar para o trabalho avisando que naquele dia ele não compareceria. “Feliz não anda bem”, falariam os amigos, prevendo alguma coisa. “Feliz não sabe o que é felicidade”, opinaria o confidente ao ouvi-lo reclamar. “Feliz não sorri”, reclamaria o cunhado. “Feliz é só tristeza”, cochichariam os vizinhos.
A vida de Feliz dependia sempre de uma vírgula. ‘Feliz não está bem’, com uma vírgula se tornaria ‘Feliz, não está bem’. E toda gente acharia que apesar de não estar bem o homem andava feliz.
De que será que ele morreu? Se alguém erra a frase dirá: “Feliz, morreu do coração”. E todos entenderiam que morreu de felicidade. Morreu Feliz. Feliz morreu. De toda forma que se diga, a morte de Feliz é sempre poética. Penso que são poucos os que morrem felizes.
Imagino que em seu velório ninguém tenha chorado, pois, morreu Feliz. Choraríamos todos se morresse a felicidade, porque ainda que pouca, ela é indispensável em nossas vidas.
Talvez Feliz tenha morrido irritado porque ninguém consegue ser feliz o tempo todo.

*****

À família de Feliz, meus sinceros sentimentos. Esse texto não é de forma alguma um desrespeito, mas é que na mente de quem ama as palavras, a morte de uma pessoa chamada Feliz causa pura inspiração.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Eu conto e eles não acreditam



Tenho duas amigas, coincidentemente, da mesma cidade, que têm tias com nomes bastante excêntricos. Acho que as avós daquele lugar tinham certo problema com a maternidade.

Uma delas, muito religiosa, deu às suas filhas os nomes de: Fé, Esperança e Caridade. Para contrariar o dito popular, Esperança morreu primeiro.


A outra não quis abusar da criatividade no nome das filhas gêmeas. Como boa mãe, não quis jamais que elas se separassem. Como não podia ser unha e carne, optou por Clara e Gema. Sim, pode rir, mas acredite. Será que se fossem trigêmeas a terceira seria Casca? E se o terceiro filho fosse um menino, será que o nome dele seria Ovo?



Minha avó gostava do som ‘ete’. Tanto assim que batizou suas filhas de Elizabete, Bernadete, Marizete, Claudete e Arlete. Sendo a última das ‘etes’ a minha mãe. Fatou ‘ete’ para tanta menina e nas últimas ela radicalizou: Rose e Ione. Eu ainda acho que poderia ter sido Rosilete e Ionete!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Incoerência

Vestiu seu melhor sorriso, mas voltou sem o que esperava.
Olhavam apenas para suas roupas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um banho para lavar a alma


O dono da funerária era casado, ele estava feliz com o casamento, a esposa, ao que tudo indicava, não muito. Ela tinha uma relação extraconjugal, a qual não era segredo para ninguém. O empresário, acostumado a ser o chefe, a cuidar do que é seu, foi atrás do amante. Pediu educadamente para que ele se afastasse e deixasse que seu casamento, sua vida e esposa seguissem em paz.
Coisa do destino, coincidência ou não, o homem realmente os deixou em paz. Não apenas terminou o relacionamento, mas sim, bateu as botas. Foi para o além uma semana depois da conversa com o corno indignado. E não foi caso de assassinato. O homem enfartou sabe-se lá porque, pode ter sido medo do marido traído ou a infelicidade de ficar sem a amada.
Sem saber de quem se tratava, o dono da funerária foi chamado para transportar um cadáver ao IML, que ficava numa cidade distante 150 quilômetros de onde ele estava. Quando percebeu quem era, nem cogitou a possibilidade de recusar o serviço. Cheio de raiva, com nenhum pesar e talvez até contente, colocou o homem num daqueles caixões de lata. Não o prendeu adequadamente. Exagerou nas curvas, sem pensar que poderia deixar a esposa viúva duas vezes no mesmo dia, do marido – que ainda vivia, e do amante, cujo corpo jazia na traseira do carro do marido traído. O cadáver ia de um lado a outro, deslizava no caixão. Estava fazendo uma viagem que, se ainda estivesse vivo, colocaria em risco sua vida.
Autopsia feita, corpo liberado, seguiram marido e amante o caminho de volta. Nos cento e cinquenta quilômetros, em cada curva o estrondo do caixão na traseira fazia vibrar de júbilo o coração do homem traído. Ao chegar, alguém imaginou que o dono da funerária estivesse cansado e quisesse deixar a arrumação do corpo para o funcionário. Que nada! Ele dispôs-se a lavar e arrumar sozinho o morto. O último banho do defunto foi inesquecível, se é que ele pôde ter consciência disso. Sem nenhum profissionalismo, o corno esbofeteou o cadáver. Disse-lhe poucas e boas. Contou o motivo de cada pancada. Lavou a alma, a sua, não a do morto. Descontou toda a raiva. Depois o arrumou, colocou flores no caixão e o entregou aos que choravam sua morte. Voltou para casa e deve ter visto com alegria e alívio os olhos lacrimejados da mulher, que voltava a ser só sua.
“Aqui se faz, aqui se paga”, finalizou a pessoa que me contou a história. Ela estava certa de que o dito popular é verdade e, ainda que sem conter o riso, jurou-me que a anedota é real.