quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Anoiteceu

Já sinto o cheiro das estrelas e o brilho do orvalho.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Manoelando

A invenção é artística,
A mentira é prática.

(Inspirada em Manoel de Barros, 'Só dez por cento é mentira')

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Morreu Feliz

Hoje ao ler o jornal, como sempre por curiosidade, olhei o obituário. Entre muitas pessoas, entre João, José, Tereza e Soeli, morreu Feliz.
Teria ele realmente morrido alegre? Parecia-me muito novo para morrer com alegria. Apenas 54 anos. Será que tinha filhos, netos, esposa?
Imagino que ele tenha tido uma vida cheia de contradições. “Feliz está chateado hoje”, observaria sua mãe. “Feliz está doente”, diria a esposa ao ligar para o trabalho avisando que naquele dia ele não compareceria. “Feliz não anda bem”, falariam os amigos, prevendo alguma coisa. “Feliz não sabe o que é felicidade”, opinaria o confidente ao ouvi-lo reclamar. “Feliz não sorri”, reclamaria o cunhado. “Feliz é só tristeza”, cochichariam os vizinhos.
A vida de Feliz dependia sempre de uma vírgula. ‘Feliz não está bem’, com uma vírgula se tornaria ‘Feliz, não está bem’. E toda gente acharia que apesar de não estar bem o homem andava feliz.
De que será que ele morreu? Se alguém erra a frase dirá: “Feliz, morreu do coração”. E todos entenderiam que morreu de felicidade. Morreu Feliz. Feliz morreu. De toda forma que se diga, a morte de Feliz é sempre poética. Penso que são poucos os que morrem felizes.
Imagino que em seu velório ninguém tenha chorado, pois, morreu Feliz. Choraríamos todos se morresse a felicidade, porque ainda que pouca, ela é indispensável em nossas vidas.
Talvez Feliz tenha morrido irritado porque ninguém consegue ser feliz o tempo todo.

*****

À família de Feliz, meus sinceros sentimentos. Esse texto não é de forma alguma um desrespeito, mas é que na mente de quem ama as palavras, a morte de uma pessoa chamada Feliz causa pura inspiração.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Eu conto e eles não acreditam



Tenho duas amigas, coincidentemente, da mesma cidade, que têm tias com nomes bastante excêntricos. Acho que as avós daquele lugar tinham certo problema com a maternidade.

Uma delas, muito religiosa, deu às suas filhas os nomes de: Fé, Esperança e Caridade. Para contrariar o dito popular, Esperança morreu primeiro.


A outra não quis abusar da criatividade no nome das filhas gêmeas. Como boa mãe, não quis jamais que elas se separassem. Como não podia ser unha e carne, optou por Clara e Gema. Sim, pode rir, mas acredite. Será que se fossem trigêmeas a terceira seria Casca? E se o terceiro filho fosse um menino, será que o nome dele seria Ovo?



Minha avó gostava do som ‘ete’. Tanto assim que batizou suas filhas de Elizabete, Bernadete, Marizete, Claudete e Arlete. Sendo a última das ‘etes’ a minha mãe. Fatou ‘ete’ para tanta menina e nas últimas ela radicalizou: Rose e Ione. Eu ainda acho que poderia ter sido Rosilete e Ionete!

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Incoerência

Vestiu seu melhor sorriso, mas voltou sem o que esperava.
Olhavam apenas para suas roupas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um banho para lavar a alma


O dono da funerária era casado, ele estava feliz com o casamento, a esposa, ao que tudo indicava, não muito. Ela tinha uma relação extraconjugal, a qual não era segredo para ninguém. O empresário, acostumado a ser o chefe, a cuidar do que é seu, foi atrás do amante. Pediu educadamente para que ele se afastasse e deixasse que seu casamento, sua vida e esposa seguissem em paz.
Coisa do destino, coincidência ou não, o homem realmente os deixou em paz. Não apenas terminou o relacionamento, mas sim, bateu as botas. Foi para o além uma semana depois da conversa com o corno indignado. E não foi caso de assassinato. O homem enfartou sabe-se lá porque, pode ter sido medo do marido traído ou a infelicidade de ficar sem a amada.
Sem saber de quem se tratava, o dono da funerária foi chamado para transportar um cadáver ao IML, que ficava numa cidade distante 150 quilômetros de onde ele estava. Quando percebeu quem era, nem cogitou a possibilidade de recusar o serviço. Cheio de raiva, com nenhum pesar e talvez até contente, colocou o homem num daqueles caixões de lata. Não o prendeu adequadamente. Exagerou nas curvas, sem pensar que poderia deixar a esposa viúva duas vezes no mesmo dia, do marido – que ainda vivia, e do amante, cujo corpo jazia na traseira do carro do marido traído. O cadáver ia de um lado a outro, deslizava no caixão. Estava fazendo uma viagem que, se ainda estivesse vivo, colocaria em risco sua vida.
Autopsia feita, corpo liberado, seguiram marido e amante o caminho de volta. Nos cento e cinquenta quilômetros, em cada curva o estrondo do caixão na traseira fazia vibrar de júbilo o coração do homem traído. Ao chegar, alguém imaginou que o dono da funerária estivesse cansado e quisesse deixar a arrumação do corpo para o funcionário. Que nada! Ele dispôs-se a lavar e arrumar sozinho o morto. O último banho do defunto foi inesquecível, se é que ele pôde ter consciência disso. Sem nenhum profissionalismo, o corno esbofeteou o cadáver. Disse-lhe poucas e boas. Contou o motivo de cada pancada. Lavou a alma, a sua, não a do morto. Descontou toda a raiva. Depois o arrumou, colocou flores no caixão e o entregou aos que choravam sua morte. Voltou para casa e deve ter visto com alegria e alívio os olhos lacrimejados da mulher, que voltava a ser só sua.
“Aqui se faz, aqui se paga”, finalizou a pessoa que me contou a história. Ela estava certa de que o dito popular é verdade e, ainda que sem conter o riso, jurou-me que a anedota é real.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ciúmes

Ciúmes, meu bem. Quem está na vantagem, quem olha ou quem tem?