terça-feira, 23 de outubro de 2012

Incoerência

Vestiu seu melhor sorriso, mas voltou sem o que esperava.
Olhavam apenas para suas roupas.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Um banho para lavar a alma


O dono da funerária era casado, ele estava feliz com o casamento, a esposa, ao que tudo indicava, não muito. Ela tinha uma relação extraconjugal, a qual não era segredo para ninguém. O empresário, acostumado a ser o chefe, a cuidar do que é seu, foi atrás do amante. Pediu educadamente para que ele se afastasse e deixasse que seu casamento, sua vida e esposa seguissem em paz.
Coisa do destino, coincidência ou não, o homem realmente os deixou em paz. Não apenas terminou o relacionamento, mas sim, bateu as botas. Foi para o além uma semana depois da conversa com o corno indignado. E não foi caso de assassinato. O homem enfartou sabe-se lá porque, pode ter sido medo do marido traído ou a infelicidade de ficar sem a amada.
Sem saber de quem se tratava, o dono da funerária foi chamado para transportar um cadáver ao IML, que ficava numa cidade distante 150 quilômetros de onde ele estava. Quando percebeu quem era, nem cogitou a possibilidade de recusar o serviço. Cheio de raiva, com nenhum pesar e talvez até contente, colocou o homem num daqueles caixões de lata. Não o prendeu adequadamente. Exagerou nas curvas, sem pensar que poderia deixar a esposa viúva duas vezes no mesmo dia, do marido – que ainda vivia, e do amante, cujo corpo jazia na traseira do carro do marido traído. O cadáver ia de um lado a outro, deslizava no caixão. Estava fazendo uma viagem que, se ainda estivesse vivo, colocaria em risco sua vida.
Autopsia feita, corpo liberado, seguiram marido e amante o caminho de volta. Nos cento e cinquenta quilômetros, em cada curva o estrondo do caixão na traseira fazia vibrar de júbilo o coração do homem traído. Ao chegar, alguém imaginou que o dono da funerária estivesse cansado e quisesse deixar a arrumação do corpo para o funcionário. Que nada! Ele dispôs-se a lavar e arrumar sozinho o morto. O último banho do defunto foi inesquecível, se é que ele pôde ter consciência disso. Sem nenhum profissionalismo, o corno esbofeteou o cadáver. Disse-lhe poucas e boas. Contou o motivo de cada pancada. Lavou a alma, a sua, não a do morto. Descontou toda a raiva. Depois o arrumou, colocou flores no caixão e o entregou aos que choravam sua morte. Voltou para casa e deve ter visto com alegria e alívio os olhos lacrimejados da mulher, que voltava a ser só sua.
“Aqui se faz, aqui se paga”, finalizou a pessoa que me contou a história. Ela estava certa de que o dito popular é verdade e, ainda que sem conter o riso, jurou-me que a anedota é real.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Ciúmes

Ciúmes, meu bem. Quem está na vantagem, quem olha ou quem tem?

terça-feira, 26 de junho de 2012

Falta de personalidade


Alguém falou que depois de ler certo livro de ficção científica deixou de acreditar em Deus e passou a odiar política.
Hmm... E depois de ler Dom Casmurro virou corno?
Gigante depois de As viagens de Gulliver?
Ladrão quando leu Oliver Twist?

Aff...

terça-feira, 19 de junho de 2012

Resolva a equação: Substitua números por pessoas


Nos municípios paranaenses de Imbituva, Irati, Rebouças, Rio Azul e Mallet, entre outros, o asfalto da BR-153 deu lugar a buracos que facilmente ‘engolem’ pneus dos carros que passam por ali. A falta de manutenção transformou o que poderia ser o preenchimento de pequenas imperfeições em necessidade de recape total, investimento multiplicado. 

Diariamente, estudantes desses municípios passam pela rodovia em carros, vans e ônibus lotados para chegarem à universidade. Em busca de um futuro melhor, eles correm o risco de transformarem-se em números de novas tragédias, como a que recentemente matou quinze pessoas que trafegavam pela BR-277 que ainda não foi duplicada, embora pedagiada há anos.


Nos últimos seis meses, entre Foz do Iguaçu e Guarapuava, na mesma BR-277, oitenta e duas pessoas morreram em acidentes. Foram registrados até junho desse ano, 1.009 acidentes. Percentualmente, o número de mortes é pequeno com relação aos milhares de usuários que trafegaram pela rodovia. Apenas percentualmente. 

O problema está nos números. Enquanto quem tem autonomia para resolver essas situações pensar apenas em números, nada será feito. É necessário pensar no ser humano, aquele que é único e insubstituível. 

Dezenas de pessoas podem saber fazer o trabalho de um homem, porém, só ele o fará daquela forma, com as particularidades que adotou. Há bilhões de homens no planeta, entretanto, para a família da vítima há apenas um pai, um irmão, um filho. Para a mãe que perdeu o filho em um acidente, embora ela tenha e possa ainda ter muitos outros, aquele era único. Para a criança que perdeu o pai, nenhum homem se igualará àquele que se foi. Para a mulher que ficou sem o esposo, outras paixões poderão vir, porém, nenhuma será como aquela. 

A vida segue após uma tragédia, ainda que com dores e saudades. Contudo, isso não apaga o fato de que cada pessoa carrega em si a singularidade. Nada extraordinário ela precisa ter feito, pois já é única em seu jeito de falar, de sentir, de viver. Cada ser humano é único porque só ele chega em casa ou ao trabalho e ocupa seu espaço daquela forma. Cada pessoa é especial para alguém. 

Nem todos somos estudantes que viajam diariamente em busca do conhecimento. Contudo, somos usuários de rodovias. Dependemos delas para fazer passeios, para recorrer a médicos em outras cidades, para visitar pessoas queridas.

Quando políticos e autoridades perceberem essa realidade, quando pararem de contar votos e passarem a enxergar pessoas, aí sim os problemas serão sanados. Enquanto isso, seguimos nossos caminhos como possíveis estatísticas, futuras tragédias.

Com o rei na barriga

- Ele pensa que tem o rei na barriga.
- Eu também pensava isso, mas, pelo tamanho da barriga, acho que ele realmente engoliu um rei.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Meu eu plural

Sou a Carolina aluna, a professora, a irmã, a amiga, a filha, a namorada. Sou a Carolina do local onde eu trabalho, sou a Carolina eleitora, a Carolina cidadã. Sou a Carolina criança, a adolescente, sou Carolina mulher. Sou a Carolina dos filmes aos quais assisti, dos livros que li, das músicas que ouvi.
Nenhuma delas se destaca. Elas não brigam dentro de mim. Ao contrário, interagem e fazem de mim a pessoa que eu sou. Não cobrem de uma delas, mas de todas. Não me enxergue como aquela que trabalha ali, mas como aquela pessoa que, além de trabalhar, vive em diversas realidades ao longo de um único dia. Sou, assim como descreveu Clarice, habitada. E pessoas habitadas são possuídas. Não pelo demo, mas por elas mesmas, pelas indagações, angústias e incertezas do seu cotidiano. Sou plural. Sou fruto de tudo aquilo que vivi e vivo, de tudo o que senti e sinto, de tudo o que vi e vejo. Portanto, quando falo, quando penso, quando ajo, não sou a Carolina, sou Carolinas. Sou uma, mas represento todas aquelas que habitam em mim. Eu respeito todas elas. E se eu as respeito, não dou a ninguém o direito de tentar me calar. Alguém pode dizer que isso é teimosia, ideologia boba, um sonho em vão. Eu dou outro nome, chamo isso de autoestima, de autorrespeito. Se uma pessoa não respeita a si mesma, não pode buscar o respeito de outrem. Embora eu seja muitas, não almejo ser universal. Quando falo o que penso, não peço autorização, não tiro o chapéu a quem não devo. Não adoto opiniões alheias para facilitar o diálogo. As opiniões são minhas e de quem com elas quiser concordar.