quarta-feira, 11 de março de 2020

Discurso de paraninfa do curso de Letras Inglês - UNICENTRO 2020


Querid@s alun@s, recebo esta missão de fazer-lhes uma última aula com humildade e emoção. 

Vocês são, agora, professoras e professores! Há algo mais lindo do que isso? Por isso eu repito: Vocês são agora professoras e professores. A partir deste momento vocês dividem conosco a grande responsabilidade que é o ato de educar em um país que tanto limita a educação do seu povo.

Ouvimos repetidamente que a educação no Brasil não deu certo. Uma deputada federal de nosso estado recentemente disse que investir mais dinheiro na educação seria como colocar mais água em uma mangueira gigantesca e cheia de buracos. Ela finalizou sua fala dizendo que “nossos professores não sabem ensinar”. É dolorido e muito triste ouvir opiniões degradantes de quem não conhece o chão e a poeira do giz de uma sala de aula.

Por isso eu lhes digo, cuidado! Cuidado queridos graduados, para não reafirmarem este discurso que serve de justificativa para privatizações e para a desvalorização de nosso trabalho e carreira. Defendam a educação pública! Olhem para as suas histórias e encontrem nelas o contraditório!

Quando eu vejo aqui, no interior do Paraná, que os filhos de pequenos agricultores e assalariados, assim como os filhos dos ditos doutores, conquistam diplomas universitários, tenho a certeza de que a educação está dando certo. Olhar para vocês deixa-me convicta de que a educação pública deu certo e prosperará!

Escolher uma carreira na educação é uma escolha corajosa no Brasil atual. Escolher a educação é acreditar em um futuro melhor, em que a terra voltará a ser esférica, o Di Caprio será apenas o protagonista do Titanic e os livros didáticos estarão cheios, repletos, infestados de palavras! Palavras de rebeldia, de enfrentamento, de feminismo, de igualdade, de diversidade, de fraternidade e de transformação!

Como professora, afirmo que nós, profissionais que fizemos parte de sua formação, temos muito orgulho de vocês. A sua conquista representa muito para nós porque aprendemos com vocês muito mais do que ensinamos. Eu aprendi com a dedicação de quem viajou toda noite durante quatro anos para estar nas aulas. Aprendi quando vi vocês trazendo marmitas de casa para economizar com a alimentação. Aprendi com as suas dificuldades, pois elas demonstraram as minhas falhas. Aprendi quando vocês me fizeram perguntas que eu não soube responder porque aquilo que eu ignoro é muito maior do que o pouco que eu sei. Os meus alunos que estão vindo depois de vocês terão uma professora melhor e por isso, além de meu orgulho, levem com vocês a minha eterna gratidão.

Vocês são a prova de que a educação pública e gratuita tem qualidade, vai bem e com vocês nas salas de aula, irá ainda melhor. 

Voem alto! Leiam muito, questionem e revolucionem! Façam ciência! Libertem mentes, inovem e sejam felizes! Tomem suco de laranja! E tomem cerveja também!

E lembrem-se: Gritem alto, forte e em bom som: “Você não” para todos aqueles que desvalorizam o saber docente! “Você nunca” para quem não acredita em educação! E digam com uma força maior ainda: nós somos mais fortes! O conhecimento e a educação sempre, sempre vencerão!

(Discurso proferido por ocasião da cerimônia de colação de grau do curso de Letras-Inglês e demais cursos do setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, da UNICENTRO (Universidade Estadual do Centro-Oeste), realizada em 11 de março de 2020). 

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Where inspiration is


Hoje, num dia tão triste para a história do nosso país (05 de abril de 2018), vivi um momento de muita alegria, de realização e certeza. Meu coração acordou acelerado, ansioso, esperançoso.

Entrei novamente em uma sala de aula. Mas entrei diferente, transformada e decidida a transformar. Como aluna, minha primeira chegada à escola foi aos dois meses de idade. Como professora, aos dezessete anos. E hoje, entrei pela primeira vez em sala de aula como docente no Ensino Superior, na universidade que me proporcionou duas graduações e um mestrado. Universidade pública, gratuita e que sofre com os descasos daqueles que deveriam apoiá-la. 

Não sei se aqueles minutos foram tão bons para os alunos quanto para mim. Só o tempo irá dizer. Mas, este momento trouxe-me a certeza de que estudei até aqui e quero continuar estudando para exercer e defender esta profissão tão linda – tão carente de atenção ultimamente.

Descobri o que muitos já sabiam: a inspiração está nas coisas que amamos.

“Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina” – Cora Coralina. Que este seja meu lema e atitude, que todos os dias eu saiba ensinar e aprender.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

O que nos faz mulheres?

O que nos faz mulheres? 
Os filhos que parimos ou os que abortamos?
O que dizemos ou o que silenciamos?
As pessoas com quem dormimos ou aquelas às quais nos negamos?
Os poemas que lemos ou os que ignoramos?
O pranto que vivemos ou as lágrimas que guardamos?
O corpo com o qual nascemos ou o que conquistamos?

Conhecimento

Aquilo que eu ignoro diz mais sobre mim do que tudo o que eu sei. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Os restos da sociedade

Nasceu. Seco. Sem lágrimas. Não houve espera. Não houve berço preparado. Alguém deu à luz. Ninguém deu-lhe a luz. Nasceu pobre. Nasceu filho da puta. Nasceu filho da amante. Filho de chocadeira. Filho do boto. Nasceu bastardo. Nasceu sem pai. Nasceu sem pensão. Nasceu sem fraldas. Nasceu como erva daninha que brota sem semear. Nasceu sem roupas. Nasceu sem bolsos. Nasceu sem moedas. Nasceu sem notas. Nasceu sem teto. Fruto do aborto proibido. Cria do macho reprodutor. Rebento do pecado original. Nasceu sem sentimento. Nasceu desprezado. Nasceu sem nome. Nasceu sem descendência. Nasceu sem árvore genealógica para montar na escola. Filho de gente ruim. Nasceu abandonado. Carrega no sangue a ruindade. Não vai prestar. Melhor não adotar. Nasceu como a comida que resta no prato. Nasceu fadado ao lixo da sociedade. Nasceu para perpetuar a desigualdade.  Eles nascem todos os dias. 

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Estamos amando demais e sentindo de menos

Estamos amando demais e sentindo de menos. Uma frase repetida incomoda, mas milhares de emoticons tornam o dia mais feliz.

Depois que o facebook incluiu a opção de amar as postagens, passamos a amar infinitamente, sem limites, sem preconceitos, sem pensar. Amamos a foto da melhor amiga, amamos os amores alheios, amamos a citação que nem sabemos se é realmente de Exupéry, de Clarice Lispector ou de Fernando Pessoa. Amamos tudo aquilo que nos parece bonito. 

Não nos contentamos com o like, quisemos mais e eles nos deram. Podemos amar, sentir raiva, chorar, rir e nos surpreender com um wow aportuguesado que só este mundo digital pode nos proporcionar.

Em um mundo de relações tão passageiras, o amor está em todo lugar e em lugar nenhum. 

Se eu amo uma postagem qualquer, o que eu sinto pelas pessoas que estão próximas de mim? Eu amo uma frase e daqui a meia hora não lembro mais daquilo que fez meu coração bater mais forte. Este mundo de efemeridades nos torna superficiais, sensíveis demais e cada vez menos profundos.


É fácil amar o mendigo no vídeo com milhares de visualizações no you tube, difícil mesmo é oferecer-lhe coraçõezinhos cor-de-rosa quando ele passa malcheiroso por nós no caminho da boutique. 

terça-feira, 22 de julho de 2014

Distração

Conta-se por aí, a peripécia de um prefeito que precisou viajar para uma importante reunião em Curitiba. O homem se produziu para o encontro, afinal, prefeito de primeira viagem, conversaria pela primeira vez em uma reunião privada com o governador. Era sua oportunidade de mostrar tudo aquilo que sabia e que sua cidade precisava.
Terno bem passado, camisa nova e gravata compunham seu figurino, cuidadosamente pensado para a ocasião. Combinou com o motorista que almoçariam no caminho, evitando atrasos. 
Conforme já estabelecido, pararam para almoçar na cidade de Palmeira. Desceram e foram direto ao buffet para se servir. Seguindo o conselho da esposa, não colocou no prato nenhuma comida com molho, para evitar respingar em sua roupa, como costumeiramente acontecia em casa. Conhecendo bem o marido que tinha, a esposa cuidadosa fez que ele levasse consigo uma camisa extra, caso o molho do macarrão ou o caldo do feijão manchassem a que vestia.
O prefeito terminou sua refeição antes do motorista e foi buscar uma sobremesa que lhe pareceu muito apetitosa, quando serviu-se do almoço no buffet. Foi então que o motorista o olhou e percebeu o que havia acontecido. Logo que o chefe retornou à mesa, discretamente ele lhe disse:
“Prefeito, o senhor está com os sapatos trocados. Um pé de um e um pé de outro”. 
Um sapato era marrom, o outro preto. O prefeito olhou para os pés e colocou as mãos na cabeça:
“E agora, como vamos fazer?”
“Já estamos longe, acho que não adianta voltar”, disse o motorista, calmamente.
E o prefeito respondeu bravo, achando a ideia de voltar muito absurda:
“Mas é claro que não adianta voltar! Pois lá também ficou um pé de um e um pé de outro!”.

Como dizia minha mãe quando lia para mim historinhas infantis,https://mail.google.com/mail/u/0/images/cleardot.gif “essa história entrou por uma porta e saiu pela outra. Quem souber, que conte outra”.