sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Devorando letras

 


Gosto de comer e de ler. Às vezes faço as duas coisas ao mesmo tempo. Embora pareçam ações bem distintas, degustar um livro e uma refeição se assemelham. 

Penso em como é bom saborear as palavras, imaginá-las antes de conhecê-las, sentir seu cheiro e sua textura no contato inicial, assim como quem come crème brûlée pela primeira vez, depois de observá-lo, hesitante, na vitrine de doces. 

Prato na mesa, o rito começa com o estalo: um som que é grito e sussurro ao mesmo tempo, quando a cobertura crocante, aquela camada firme, todavia delicada, anuncia a ruptura sob o gesto da mão. Depois, é hora de encher a colher e contemplar a sobremesa, fragmentada, como cacos de vidro que jamais voltarão a ser o que eram. Então, sentir os pequenos pedaços tocarem a língua, o amargor do açúcar queimado misturando-se ao doce aveludado do creme, em uma experiência de intensa contradição. 

No ato da degustação, o tempo é relativo. Você não sabe se devora a sobremesa, aproveitando-a com voracidade, ou se a degusta devagar, prolongando cada segundo. Finda a porção, o instante não se encerra. Ao contrário, se prolonga com o vestígio de prazer que permanece na boca, apesar do fim.

"Oração para desaparecer" é um livro tal qual a sobremesa, uma obra para ser degustada, saboreada e memorizada. É um livro que pode ser lido paulatinamente, preservando a intensidade de cada página, ao longo de dias em que a curiosidade vai instigar seus pensamentos. Pode também ser devorado impetuosamente, nos poucos segundos que compõem uma tarde dedicada ao prazer. 

Entre tantas outras leituras, ler Socorro Acioli, cito a autora porque para mim autora e obra se fundem na imensidão das ideias, é um deleite, um respiro, um despertar. 

Eu não sei escrever. Tampouco sei cozinhar. É fato que de vez em quando me arrisco nas letras e nas panelas. Mas a verdade é que gosto mesmo é de degustar os bons livros e saborear os bons pratos. 



segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Prece

Em sua grandeza, o mar une água, terra e ar

Mergulhei pedindo, para mim também, imensidão 

Implorei sabedoria para compreender quando recuar e voltar com força

Clamei para ser abrigo e permitir fluir a vida, receber correntezas

Supliquei para ser ao mesmo tempo o silêncio e o som

Água salgada: as ondas, as lágrimas

O mar e eu somos um só 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Prece de mãe

Oração de mãe é mais poderosa que as dores do mundo

Todos os dias ela reza por mim, intercede, implora

Acredita que suas palavras chegam ao céu e me distanciam dos problemas terrenos

Ajoelhada diante de suas santas, pede por nós, seres tão impuros e descrentes

Suas mãos morenas, levemente enrugadas e quentes tocam minha testa com um sinal de cruz, símbolo austero de sofrimento e proteção 

Prece de mãe é mais forte que incredulidade 

As preces de minha mãe alimentam o sonho de proteger-me

Prece de mãe salva até filho que perdeu a fé 

sábado, 5 de outubro de 2024

Cadeiras de plástico

Você já visitou a câmara de vereadores ou a prefeitura da sua cidade? Como são as cadeiras nas quais seus representantes políticos se sentam? Quão confortável é a cadeira do vereador que você elegeu, na qual ele se senta por poucas horas durante a sessão legislativa semanal? 

Certamente, não é uma cadeira de plástico. Afinal, quem gosta de se sentar em cadeiras de plástico? Quem fica confortável em uma daquelas cadeiras brancas, cujos pés se abrem de acordo com o peso da pessoa? 

Aqui na Bahia, na semana passada, tivemos uma emergência e passei uma noite acompanhando meu esposo no hospital, que se contorcia com cálculos renais. Chegamos no início da madrugada. Medicado, com a dor amenizada, ele dormiu sem coberta ou travesseiro. Saímos sem diagnóstico, apenas com a solução momentânea para a dor, por volta das nove da manhã. Eu passei a noite em uma cadeira de plástico, simples, branca-encardida, sem apoio para os braços e ressecada pelo tempo. 

Minha coluna e nervo ciático me lembrarão dessa noite por algumas semanas. 

No Paraná, há mais de dois anos, meu pai e meu tio, ambos com mais ou perto dos sessenta anos, dormiram em cadeiras de plástico por dezessete noites seguidas, acompanhando minha avó que lutava contra a pneumonia que a levou à morte.

Aqui ou lá, em regiões do país tão distintas e distantes, em cidades governadas por políticos de partidos opostos, quem acompanha uma pessoa querida no hospital público da cidade dorme em cadeiras de plástico. Como se não bastasse a dor emocional, soma-se a dor física.

As cadeiras de plástico são terríveis em situações corriqueiras: nas reuniões de escola, na festa de aniversário, no culto ao qual você vai voluntariamente... Nos hospitais, elas não são apenas desconfortáveis, são cruéis e desumanas. São também um indício da insensatez do governante, pois, cadeiras de plástico adoecem a coluna e prejudicam o sono. Pessoas que não dormem e com as costas inflamadas ficam doentes e, uma vez doentes, voltam ao hospital como pacientes. Uma vez pacientes, geram gastos para o poder público.

É outubro novamente e não vi ninguém apresentar proposta para banir as cadeiras de plástico da sociedade, mas olho para @s candidat@s e penso quais deles passariam pelo mesmo que eu, quais recorreram ao SUS em caso de doença na família. Ao observar, entendo que os que passariam pela mesma situação serão os mais sensibilizados. Como diz Carolina Maria de Jesus, o Brasil precisa ser governado por alguém que tenha passado fome, pois a fome também é professora. 

Na hora de escolher a quem dará seu voto, escolha @ candidat@ mais humano, aquele que olha os detalhes, que vê para além dos números, que sabe que as cadeiras de plástico não comportam as nossas dores e nossos corpos.

terça-feira, 10 de setembro de 2024

Quarentar


Quarentar se fez verbo. Quarentar é ter a sensação de estar no meio do caminho. É estar tão perto dos 20 quanto dos 60. É assustador não ser tão jovem que possa rir das irresponsabilidades nem tão velha para me aposentar.

As escolas nas quais estudei não existem mais. São prédios antigos, vazios, que não ecoam mais os gritos e risadas da infância e da juventude, mas guardam segredos cochichados entre melhores amigos e quiçá algum desenho não encoberto pela tinta que apaga os riscos, mas não as memórias. As lembranças são tão nítidas que posso narrar em detalhes as salas de aula, a poeira brilhando magicamente sob o sol da manhã de inverno e o cheiro do tempero do lanche sendo preparado na cantina. Depois da escola, era a hora da bicicleta, da piscina, dos jogos de queimada na rua, debaixo da árvore de folhas gigantes.

Ainda guardo comigo a manta vermelha na qual eu era carregada quando bêbe, como se a infância estivesse logo ali, como se eu ainda coubesse no colo de minha mãe e pudesse ser ninada até o choro cessar.

É setembro. Já se pode sentir o cheiro da primavera dobrando a esquina. Os ipês floresceram lindamente neste ano, mesmo longe de mim. A natureza é imperiosa e não se abstém de sua função. Os ipês são belos, não importa a perspectiva da qual sejam admirados: olhando para cima, pintam de amarelo o céu azul, para baixo, dão vida à calçada, transformando-a em tapete sem igual. Em um momento em que a vida me faz perguntas cruciais, os ipês amarelos me aguardam dizendo que eu posso sempre voltar, que a vida é bonita e que os ciclos vêm e vão: é preciso brotar, ser semente, florir, alegrar, cair e recomeçar.

Quarentei com medo de dizer que quarentei. Quatro décadas parecem muito para quem acha que viveu tão pouco e aprendeu quase nada. Que eu possa cinquentar, sessentar, setentar, oitentar e até mesmo noventar, como fizeram minha avó e tias-avós, pois, enquanto for verbo, serei vida.

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Em trânsito

Ouvi dizer que em algumas cidades mundo afora estão usando um artifício revolucionário no trânsito. Tem baixo custo e um retorno incrível. São faixas pintadas no chão das ruas, como uma zebra (tanto é que na Inglaterra chamam de "zebra crossing"). Funciona assim: os pedestres devem atravessar as ruas nesses locais. Nas autoescolas estão ensinando motoristas a pararem para que os pedestres cruzem em segurança e o trânsito flua melhor. Achei o máximo! Que tal se a gente trouxesse isso pra cá? 

Ouvi falar também das chamadas "setas". É uma luzinha que vem integrada ao carro e o motorista usa para indicar para que lado irá virar. Vou me informar melhor e depois compartilho com vocês o que eu descobrir acerca do funcionamento deste equipamento inovador. 

[Só a ironia me permite sobreviver!]

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Epitáfio nordestino

Karolina vai no chão 
Karolina an an an 
Karolina vai no chão 
Karolina an an an 
Karolina vai no chão 

Música: Karolina 
Composição: O erótico (sooooocorro!)
PS: No túmulo deixem sem a autoria porque é humilhação demais!



terça-feira, 7 de novembro de 2023

Sobre as avós e os dias de chuva

Quando eu era criança, no início dos anos noventa, não tínhamos telefone em casa. Então, no domingo à noite, meu pai nos convidava para ligar para a vó Maria. Nós morávamos em um lugar lindo, que fazia jus ao seu nome: Fazenda Monte Alegre. Um lugar de ruas largas, com imensas árvores e cantos de passarinhos, onde eu aprendi a amar os ipês. Eu pegava minha bicicleta, amarela – vibrante como as flores dos ipês, e ia feliz, serpenteando na frente, enquanto ele nos seguia a pé, até o escritório. Eu gostava do cheiro de limpeza e do eco que fazia ao adentrar o prédio vazio. Lá, naquele telefone cinza e de fio embolado, antes tão populares, mas que hoje não se vê mais por aí, ele chamava a telefonista pedindo uma ligação para Irati, Paraná. Em poucos instantes ouvíamos o trimmmmmmmm estridente, hoje tão saudoso. Era a telefonista que retornava com minha avó do outro lado da linha.
Depois de conversar um pouco, ele me colocava para bater papo e escutar o que a vovó tinha a nos contar. Ela perguntava da escola, dos amiguinhos, dos peixes do aquário, do cachorrinho. Ela morava no alto do bairro, em uma casa amarela, de madeira, com varanda “em L” na frente. As calçadas avermelhadas eram feitas de caquinhos e ganhavam vida com as flores coloridas e sempre bem cuidadas, ladeando a casa e as cercas: beijinhos cor-de-rosa, margaridas brancas e pimentas sarapintadas, entre tantas mais...
No quintal da casa da vó, havia um mar de alface. Toda manhã e tarde elas eram regadas. Iam para as nossas refeições e para muitas outras mesas dos arredores, pois os vizinhos, perto da hora do almoço, batiam no portão para comprar as verduras fresquinhas da dona Maria.
“Hoje choveu muito”, ela dizia ao telefone. “Está coisa mais linda aqui do alto! As alfaces estão crescendo de um dia para o outro, dá até para ver as folhas dobrando de tamanho. Aqui do alto, consigo enxergar o festival de guarda-chuvas coloridos. As crianças vão para a escola felizes com suas sombrinhas e as moças vão trabalhar apressadas. Coisa mais linda! Uma de cada cor”, ela relatava. Eu ouvia e imaginava como eram lindos os sombreiros coloridos circulando pelas ruas. Na minha cabeça de criança, parecia um carnaval multicolorido, com sombrinhas dançando frevo enquanto a água caia, insistente, do céu enevoado. De tempos em tempos, de fusca amarelo, percorríamos os 250 quilômetros de distância para visitá-la. Mas, nos dias de chuva, por mais que eu estivesse pertinho e de olhos atentos, jamais consegui ver as folhas de alface crescendo. Eu abria a porta e, lá da varanda "em L" da charmosa casa de minha vó, naquela época tão grande para mim, eu não enxergava muito. Sempre achei que fosse culpa da minha altura. Escalava os pilares, mas nunca era alto o suficiente para avistar o arco-íris. Pensava que, com o tempo, cresceria e poderia ver a maravilha do desfile de guarda-chuvas coloridos lá embaixo.
Cresci e descobri que as folhas realmente se desenvolvem mais rápido quando chove, mas não se vê a olho nu, ainda mais com o afã da vida adulta. Notei também que os guarda-chuvas de fato invadem as ruas quando chove. Aqui, no andar de cima, no centro da cidade, neste dia chuvoso, me dei conta que há sempre maneiras mais belas de narrar o cotidiano. Os dias chuvosos não precisam ser tristes nem cinzas. O brotar das folhas pode ser, sim, um milagre e não um fato corriqueiro da natureza. Daqui do alto, bem mais alto do que a linda varanda “em L” da minha vó, percebo que a maioria dos guarda-chuvas é preta. As avós, além de tornarem as mesas mais doces, fazem do nosso pequeno mundo um lugar mais colorido.

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Borboletar

Por muito tempo eu fui monocromática. Por vários anos eu me escondi dentro de mim. Hoje sou cor. E quem me vê colorida não sabe de onde vem o arco-íris. Os dias nove são de festa. Em um dia nove, no centro cirúrgico, como nascem os bebês, eu renasci. Mas, já nasci mulher feita, forte e determinada. Em vez de crescer, diminuí para poder caber em mim. Precisei renascer porque escolhi viver. E cada dia nove faz com que eu me renove, renasça e reflita. Desde aquele dia nove, eu me olho com mais amor. As fotos, que para tantos são banais, para mim são desafios. Braços, pernas, sorriso a mostra... Hoje comemoro os registros de cada dia. Nem todos os dias são bons, mas há algo de bom todos os dias. Não sou vencedora, jamais serei. Há batalhas que são eternas. Luto diariamente. Porém, a luta é, literalmente, mais leve e bonita.

terça-feira, 6 de junho de 2023

Epitáfio à moda de Sabino

Aqui jaz a Carolina, que nasceu mulher e morreu menina.

domingo, 4 de junho de 2023

Além do dendê

Findei ontem meu primeiro semestre letivo e amanhã começo a ministrar um curso de férias.

Eu vim à Bahia para ensinar os "ei, bi, cis", mas, até então, eu pouco ensinei e muito aprendi.

O tempo aqui corre diferente. O sol levanta cedo para fazer brilhar a Bahia, suas baías e os lindos baianos e baianas.

Os ponteiros do meu relógio precisaram entender que o tempo pode ser mais lento ou muitíssimo acelerado. Há muito a se fazer e mais ainda a se viver.

A vida é leve e o tempero é forte: É coentro, pimenta e carinho para dar sabor e cheiro às panelas. Provei as frutas que até então só conhecia na música de Alceu Valença.

São João me puxa pela mão para bailar forró, sentir cheiro de lenha ardendo na fogueira e ver o vento brincar com as bandeirinhas coloridas sob o céu azul.

Virei “flor”, “amor”, “meu rei” e “meu dengo”... Virei "pró"... E não há nota que não se arredonde [mentira!] e coração que não derreta quando vem alguém com o rostinho de lado e os olhos medrosos enunciando: "Ô pró, deixa eu lhe dizer...".

O abraço virou um cheiro... E como abraçar me cheira bem! (Com o perdão do trocadilho!)

Passei a desejar crianças que chamem de "mainha".

Aprendi a ter galhardia com quem negocia saídas para os estudos junto aos seus patrões, nos pequenos comércios alvoroçados, que funcionam das sete da manhã às sete da noite,  comandados por gente muito trabalhadeira.

A vida é uma professora muito melhor do que eu e insiste em me fazer ver que aquilo que eu ignoro é muito maior do que o pouco que eu sei.




sábado, 15 de abril de 2023

Viver

 Viver é colecionar saudades. 

quarta-feira, 15 de março de 2023

Árvore genealógica

Escravo e escrava; agricultor e agricultora, meus trisavós Escravo e escrava libertos; agricultor e agricultora, meus bisavós. Açougueiro e cuidadora de pensão; caminhoneiro e dona de casa, meus avós. Professora e técnico florestal, meus pais. Professora da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, eu. É pelo trabalho e história de todos os que vieram antes que eu estou aqui.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

O mundo há de ser salvo


O mundo não será salvo por grandes heróis... O mundo será salvo quando nós conseguirmos fazer com que as crianças se transformem em adultos gratos pelo que aprenderam e por quem os ensinou. O mundo será salvo quando não nos importarmos em nos desfazer de algo nosso para alegrar alguém. O mundo será salvo quando soubermos dizer “eu te amo” livremente a quem nos toca o coração. O mundo será salvo quando conseguirmos fazer com que as pessoas não percam a doçura da infância frente às amarguras da vida.

O que me deixou tão esperançosa foram os presentes que meu esposo recebeu no último dia letivo. Ele é professor do quarto ano do Ensino Fundamental. Hoje chegou em casa com as mãos cheias e o coração transbordando. Fiquei profundamente emocionada com os mimos recebidos.

Uma das crianças o presenteou com duas garrafinhas de refrigerante, daquelas que são vendidas a noventa e nove centavos. Segundo ela, “trouxe duas porque uma é para a sua esposa”. Ela deve ter investido o dinheiro que tinha disponível e me presenteou sem ao menos me conhecer...  Outra criança o presenteou com um apontador usado. Certamente, tirou do próprio estojo para ter o que dar ao professor. Um dos alunos deu-lhe figurinhas de papel jornal recortadas a mão. Havia também doces, uma caneca, um creme para a pele e diversos bilhetes dizendo o quanto o admiram. Várias cartinhas foram ilustradas com partes da tabuada: “Foi você que me ensinou, professor”, explica uma delas.

Atitudes tão singelas me fazem acreditar que o mundo pode ser salvo.  É preciso repetir: O mundo não será salvo por grandes heróis... O mundo será salvo quando nós conseguirmos fazer com que as crianças se transformem em adultos gratos pelo que aprenderam e por quem os ensinou. O mundo será salvo quando não nos importarmos em nos desfazermos de algo nosso para alegrar alguém. O mundo será salvo quando soubermos dizer “eu te amo” livremente a quem nos toca o coração. O mundo será salvo quando conseguirmos fazer com que as pessoas não percam a doçura da infância frente às amarguras da vida.

 

quarta-feira, 26 de maio de 2021

(d)Escrita

Eu não escrevo para

Escrevo sobre...

Sobre a vida

Sobre ninguém

Sobre mim

Sujeita pós-moderna

Egoísmo sem fim

segunda-feira, 29 de março de 2021

Par(t)ir

Escrevo porque a vida dói. E porque dói eu sei que [ainda] estou viva. 

A morte é um parto que dura a vida toda. 

quinta-feira, 18 de março de 2021

Velórios são para os vivos

Velórios são momentos únicos.  

No velório a tristeza impera, mas é também naquele ambiente que vemos os parentes e amigos que há muito tempo não encontrávamos. O velório é uma festa sem alegria. Os velórios são para os abraços. Os velórios são para os vivos. 

Na minha família não faltam histórias de velórios.

Ao velarmos uma tia muito amada, suas cunhadas discutiam, na alta madrugada, se poderiam ou não dormir, pois, por uma questão de flatulência incontrolável durante o sono, era possível que acabassem com a solenidade do momento. Não houve choro que não cessasse momentaneamente diante de tal diálogo. 

Minha irmã sempre erra o terço e eu, com as mãos no rosto, tento fingir que choro, quando rio da falha recorrente, praticamente uma tradição. Já sugeri a ela que tatue a Ave Maria nos punhos para evitar constrangimentos. 

No velório de um tio muito querido, sua nora, muito prestativa, pegou a chave da capela do cemitério para limpá-la. Disse aos parentes “de sangue” para não se preocuparem. A gaveta foi cuidadosamente escolhida, nem muito em cima, para não ter excesso de sol, nem muito embaixo, perto demais da terra. Asseou tudo para que a morada eterna recebesse o sogro. Na hora do enterro, a confusão: ela limpou a sepultura errada. Abriram o local certo às pressas e assim, entre sorrisos e lágrimas, nos despedimos do tio amado. Esse mesmo tio ficou alguns dias no hospital antes de falecer. Após o sepultamento, seu filho, que havia ido ao hospital para resgatar os pertences do pai, vai até minha tia com um embrulho. “Não sei o que fazer com isso”, diz, entregando à mãe. Ela abre, vê uma prótese e ri descontroladamente: “Seu pai nunca usou dentadura. Você deixou alguém banguela! ” A história provoca muitos risos sempre que é contada em família e as conversas seguem com outros feitos protagonizados pelo saudoso tio.

No velório relembramos as proezas de quem jaz e não pode mais relatá-las. Sempre tem alguém para contar um causo que fará todos rirem ou suspirarem orgulhosos e saudosos. Os mortos sobrevivem nas lembranças dos vivos.

Velórios são temperados com lágrimas e sorrisos. Velórios são sobre os abraços que podem ser dados e os que nunca mais serão possíveis.

Nos velórios amamos com toda a intensidade. Velório é momento de reflexão. Ali imaginamos como a vida será mais difícil, triste e sem graça sem esse alguém. 

Velórios são um rito de passagem. São dolorosos porque, uma vez fechada a sepultura, quem ali fica segue para a vida eterna e quem sai é condenado a voltar à vida terrena e tão incerta. 

A pandemia nos tirou o direito de velar nossos mortos e acalentar os vivos. Na pandemia a despedida (e a falta dela) é ainda mais triste. 

***

A quem perdeu alguém querido e não pôde ser consolado, desejo que as boas lembranças inundem seu coração e que em breve possamos nos abraçar.

 

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

O cu da professora

 


Professor em sala de aula é rico. Não em dinheiro, é claro, mas em histórias para contar. São pérolas incomensuravelmente mais valiosas do que as raras joias das vitrines e leilões...

Em uma manhã clara e gélida de inverno, o sol entrava pela janela da sala de aula da velha escola. A poeira circulava magicamente, brilhando sob a luz do sol. As crianças, no auge de seus oito anos de idade, com galochas, gorrinhos e luvas, copiavam silenciosamente o conteúdo. Cada respiração era ouvida e vista, como se o calor das mentes efervescentes provocasse uma reação química em contato com o ar. Um dia perfeito, calmo e tranquilo para ensinar. A professora encheu o quadro, muitas contas e problemas com enunciados complexos para resolver.

Mas, toda sala tem aquele aluno malandro, que gosta de fazer piada e tem pavor de silêncio. Enganam-se os que pensam que com seus abraços e boas notas estarão para sempre na memória dos amados professores. Talvez em seus corações, mas não na memória. Pelo contrário, os terríveis, os agitadores e baderneiros é que serão para sempre lembrados.

Num momento de distração da professora, o menino levantou-se de sua carteira, foi até o quadro e circulou com giz colorido a sílaba CU, no meio da inofensiva palavra cálculos. Risos e cochichos surgiram, despertando a atenção da mestra. Protagonista de muitas histórias, a sílaba CU é tabu entre os professores mais pudicos. Por estes, culto, culpa, cultura, cuidado e acuse podem ser usadas sem restrições, mas as cuecas e cuscuz devem ser sempre evitadas pelo alvoroço que podem causar.

Mas ali, na turma da terceira série, na inocente palavra cálculos o cu gritava, destacado pelo menino. Assim que a professora percebeu, e com a serenidade que lhe é peculiar, falou: “Queridos, a sílaba CU é como qualquer outra e nos serve para escrever muitas palavras: cupom, currículo, curso, curtir, curral, cultivo, curva”. “Cuba também, né professora”, gritou um aluno (comunista, é claro!). “Curitiba”, disse outro, sonhando com a capital. “Cubo”, complementou a garota que se destacava em matemática. “Isso mesmo”, replicou a professora, com um sorriso de aprovação. “O nome correto para isso que o colega está falando é ânus e não cu”, explicou paciente. O silêncio imperou novamente diante da palavra tão perversa e daquela grande revelação. Algumas risadinhas tímidas escapavam, encolhidas atrás das pequenas mãozinhas enluvadas. Até que o protagonista da história quebra o silêncio e provoca gargalhadas incontroláveis: “Ai que chique! O cu da professora é ânus!”

PS: Se você, assim como eu, achava que cu tinha acento, saiba que me surpreendi ao ser corrigida: cu não leva acento. “A letra u só leva acento quando é a segunda vogal de um hiato”, dizem os gramáticos. Ou seja, usei o cu errado vida inteira. Verdade seja dita, o cu só encontra o a[ss]cento quando vai ao banheiro.

[Baseado em fatos reais... Como diria Manoel de Barros, só 10% é mentira, o resto é invenção]

Texto: Carolina Filipaki

Ilustração: Heleny Meiborg

(Publicado no Zine "Os", 2018)


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Um ipê em flor


 Eu amo os ipês. Talvez porque, assim como eu, eles florescem em setembro. Quando eu nasci, os ipês alegravam o mundo e todos os anos vibram amarelos, fazendo a vida setembrar. Dos muitos privilégios que tive, crescer em um lugar onde os ipês dominam as paisagens, é de longe o mais bonito. Meu coração é saudoso pelas amizades e pelos ipês, ambos por suas sombras acolhedoras e cores que trazem à minha existência.

Eu, tão fraca e insegura, admiro a força e a resiliência destas árvores. Ipês são professores. Os ipês trazem com eles a exuberância da primavera, mostrando ao inverno, que depois dos tempos difíceis, depois de perder suas folhas e expor suas entranhas, é preciso florescer. Ipês são imponentes e suas flores, mesmo caídas, compõem as mais belas paisagens. 

Quando vivencio grandes alegrias, minha mente se enternece e exulta, como brilham os meus olhos ao ver um ipê amarelo florido, contrastando com a grama verde e o céu azul. Não há no mundo visão mais singela e poética que a do ipê em flor.

Humana e, portanto, egoísta, sempre sonhei em ter um ipê para chamar de meu. Agora eu tenho. Lindo, ele ostenta suas primeiras flores em minha calçada e me presenteia em meu aniversário. Floresça sempre, meu ipê amarelo, brilhe alegre, seja primavera em pleno inverno para nos lembrar que a vida é linda. 

terça-feira, 21 de julho de 2020

As lições do crochê


Eu fiz um gorro de crochê, pequeno, demorado e, aos meus olhos, lindo.
Ao tecê-lo entendi que um grande desafio exige paciência e que um trabalho pequeno pode ser um desafio colossal para uma aprendiz iniciante.
Entendi que a primeira experiência nem sempre é perfeita e, embora o resultado seja agradável, o percurso não é totalmente prazeroso.
Errei diversas vezes. Erros grotescos, erros pequenos, erros por falta de atenção. Alguns deles eu pude consertar sem maiores consequências, mas entendi também que às vezes é preciso recomeçar, trocar a agulha, o fio, repensar. Eu quis desistir e me irritei.
Eu mexia o fio infinitamente para lá e para cá. Passava-o por cima, por baixo, desmanchava os nós, mas o trabalho não rendia. A cada carreira finalizada, o media, na esperança de atingir o tamanho ideal. Então, notei que uma carreira sozinha não faz uma touca, mas o entrelaçamento cuidadoso do fio nos aquece.
Por fim, com o trabalho pronto, aprendi que há erros que apenas eu, que teci cada ponto daquele gorro, consigo notar. Outras falhas, somente os mais experientes conseguem identificar.
Eu decidi confeccioná-lo em um dia de muito frio. Ao terminá-lo, o sol brilhava e o calor nos aquecia. Se eu tivesse prestado atenção na lição da fábula da cigarra e da formiga, saberia que é durante o verão que devemos nos preparar para o inverno. 
Aos olhos da maioria é um simples gorro. Para mim, um processo, uma aprendizagem, uma conquista. Eu fiz um gorro de crochê e ao tecê-lo aprendi a viver.