quinta-feira, 25 de março de 2010

Isabela foi defenestrada!

Pobre Isabela, além de jogada pela janela, foi defenestrada!

Isabela está de volta aos telejornais. Uma reportagem da Record dizendo que a menina foi defenestrada lembrou-me do texto de Veríssimo. Parece que foi escrito especialmente para a ocasião. Imaginei que em vez de um noivo que defenestrou a noiva, o diálogo se passaria em frente ao prédio de Isabela, logo após o crime. A repórter estaria ali em frente gravando a matéria e alguns curiosos acompanhando:

Repórter: As suspeitas recaem sobre a família. A menina pode ter sido defenestrada pelo próprio pai.

Curioso 1: Coitadinha! Quem é que faz isso com uma criança?
Curisoso 2: Pois é! Um horror! E depois de a defenestrarem ainda a jogaram pela janela!
Curioso 1: Nem fale! Aonde é que este mundo vai parar?

Agora segue a crônica de Luis Fernando Veríssimo:

Defenestração

Certas palavras têm o significado errado. Falácia, por exemplo, devia ser o nome de alguma coisa vagamente vegetal. As pessoas deveriam criar falácias em todas as suas variedades. A Falácia Amazônica. A misteriosa Falácia Negra. Hermeneuta deveria ser o membro de uma seita de andarilhos herméticos. Onde eles chegassem, tudo se complicaria.
- Os hermeneutas estão chegando!
- Ih, agora é que ninguém vai entender mais nada...
Os hermeneutas ocupariam a cidade e paralisariam todas as atividades produtivas com seus enigmas e frases ambíguas. Ao se retirarem deixariam a população prostrada pela confusão. Levaria semanas até que as coisas recuperassem o seu sentido óbvio. Antes disso, tudo pareceria ter um sentido oculto.
- Alo...
- O que é que você quer dizer com isso?
Traquinagem devia ser uma peça mecânica.
- Vamos ter que trocar a traquinagem. E o vetor está gasto.
Plúmbeo devia ser um barulho que o corpo faz ao cair na água. Mas nenhuma palavra me fascinava tanto quanto defenestração. A princípio foi o fascínio da ignorância. Eu não sabia o seu significado, nunca lembrava de procurar no dicionário e imaginava coisas. Defenestrar devia ser um ato exótico praticado por poucas pessoas. Tinha até um certo tom lúbrico. Galanteadores de calçada deviam sussurrar no ouvido das mulheres:
- Defenestras?
A resposta seria um tapa na cara. Mas algumas... Ah, algumas defenestravam. Também podia ser algo contra pragas e insetos. As pessoas talvez mandassem defenestrar a casa. Haveria, assim, defenestradores profissionais. Ou quem sabe seria uma daquelas misteriosas palavras que encerravam os documentos formais? "Nestes termos, pede defenestração..." Era uma palavra cheia de implicações. Devo até tê-la usado uma ou outra vez, como em:
- Aquele é um defenestrado.
Dando a entender que era uma pessoa, assim, como dizer? Defenestrada. Mesmo errada, era a palavra exata. Um dia, finalmente, procurei no dicionário. E aí está o Aurelião (dicionário do Aurélio Buarque) que não me deixa mentir. “Defenestração: vem do francês defenestration. Substantivo feminino. Ato de atirar alguém ou algo pela janela”. Ato de atirar alguém ou algo pela janela! Acabou a minha ignorância mas não a minha fascinação. Um ato como este só tem nome próprio e lugar nos dicionários por alguma razão muito forte. Afinal, não existe, que eu saiba, nenhuma palavra para o ato de atirar alguém ou algo pela porta, ou escada abaixo. Por que, então, defenestração? Quem entre nós nunca sentiu a compulsão de atirar alguém ou algo pela janela? A basculante foi inventada para desencorajar a defenestração. Toda a arquitetura moderna, com suas paredes externas de vidro reforçado e sem aberturas, pode ser uma reação inconsciente a esta volúpia humana, nunca totalmente dominada. Na lua-de-mel, numa suíte matrimonial no 17º andar.
-Querida...
-Mmmm?
- Há uma coisa que preciso lhe dizer...
-Fala, Amor
-Sou um defenestrador.
E a noiva, em sua inocência, caminha para a cama: Estou pronta para experimentar tudo com você! TUDO! Uma multidão cerca o homem que acaba de cair na calçada. Entre gemidos, ele aponta para cima e babulcia:
- fui defenestrado...
Alguém comenta:
- Coitado. E depois ainda atiraram ele pela janela?
Agora mesmo me deu uma estranha compulsão de arrancar o papel da máquina, amassá-lo e defenestrar esta crônica. Se ela sair é porque resisti.

4 fizeram a Carol feliz...:

Déia disse...

rs

Só através de crônicas ( a sua, muito boa por sinal) é que conseguimos rir de algo tão grave, né?

E e a crônica sobreviveu..bem diferente do q houve com Isabela!
bj

Maris Morgenstern disse...

Vai preparando a minha então q a próxima sou eu,
Nao a ser defenestrada, mas a me formar!!!

Maris Morgenstern disse...

buááá
fotos bloqueadas...

Caroline. disse...

Só através de crônicas ( a sua, muito boa por sinal) é que conseguimos rir de algo tão grave, né? [2]

Adorei o blog =D
Beijo até mais.